sexta-feira, 26 de março de 2004

Antologia (mcmxiv): A História Sem Fim

_ Quando chegar a sua vez de saltar para o Nada, você também se transformará num servidor do poder, desfigurado e sem vontade própria. Quem sabe para o que vai servir. É possível que, com sua ajuda, se possam convencer os homens a comprar o que não necessitam, a odiar o que não conhecem, a acreditar em que os domina ou a duvidar de quem os poderia salvar. Por seu intermédio, pequenos seres de Fantasia, fazem-se grandes negócios no mundo dos homens, desencadeiam-se guerras, fundam-se impérios...

_ Há também uma quantidade de pobres tontos que, naturalmente, julgam-se muito inteligentes e pensam servir à verdade, e não encontram nada melhor para fazer que dissuadir as crianças da existência de Fantasia. Talvez você possa ser útil a eles...

_ Agora que você sabe como pode chegar ao mundo dos homens, continua a querer fazer isso, filhinho?

__ Não quero me transformar numa mentira.

_ Mas é o que vai acontecer, quer você queira, quer não (...) morreremos juntos, mas de maneiras muito diferentes, pequeno louco. Porque eu morrerei antes de o Nada aqui chegar, mas você vai ser tragado por ele. É uma grande diferença. A história daquele que morre antes de ser tragado pelo Nada acaba, mas a sua continua eternamente, sob a forma de uma mentira.

terça-feira, 23 de março de 2004

Puxem a água, que eu quero descer

Defendo o voto censitário.
Pode não melhorar nada, mas pelo menos eu não ia precisar votar.

terça-feira, 16 de março de 2004

Imortalidade

Encaro a mortalidade cada vez que encontro a face de meu avô no rosto de meu pai.

Dizem que a descoberta da mortalidade foi uma grande queda. Lendo as declarações de Truffaut, Allen e Borges, parece que a evitar por meio da obra não é aconselhável. O ceguinho dizia mesmo ninguém ter o direito de lembrar-se dos mortos, mas era só frase de efeito.

Dentre todas as formas de buscar a imortalidade, talvez a menos venerada ou romântica seja o acaso, todavia é uma das mais interessantes. Múmias não me interessam, desenhos e esculturas têm sua graça; porém o que mais aprecio são as cartas.

As cartas causam sensações paradoxais: ao mesmo tempo que nos vemos num distante passado, há sempre um elemento cotidiano próximo. Desta síntese sobrevem, invariavelmente, a consciência da mortalidade.

E as correspondências costumam revelar problemas e aflições que jamais saberemos como foram solucionadas, e a dúvida de até que ponto importa.

De qualquer modo, minha sugestão é parar de usar e-mail e começar a talhar cartas em madeira ou pedra: é caro, dá trabalho, porém é um dos meios mais seguros de se atingir a imortalidade.

quinta-feira, 11 de março de 2004

É a tortura justificável?

Depende do caboclo. O responsável pela programação da globo deve achar que é.