segunda-feira, 13 de setembro de 2004

O Contrato Social

Deflorei um labirinto de infinitas tralhas este domingo. A causa era justa, e nosso Senhor há de me perdoar. Fiquei perdido algumas horas, e como não tenho o plano de saúde do Fittipaldi, salvou-me um velho novelo de lã.

Eu já atravessava a porta de emergência quando um minotauro, por maldade e razões estéticas, surgiu das sombras para me entregar, silente, uma relíquia arqueológica de valor comparável somente à pedra do mar morto e aos manuscritos de rosetta: o contrato social.

Puído e rasurado, mas ainda assim o contrato original. Assinado por Noé, seus descendentes e a Serpente; registrado no cartório do Céu.

Apesar de meus vagos conhecimentos de bicho-europeu alto, consegui traduzir boa parte do documento no ônibus, e estou aterrorizado.

Toda a gente sabe, desde Matrix I, que o ser humano é repugnante como um chuchu, e não passa de um câncer da natureza. Mas pelo que li, se tigres ou tamanduás estivessem no poder, seria pouco diferente. Sério. Dá uma olhada:

O Contrato Social (made in Ararat, performed by MPB4)

A Regra de Ouro: "É errado ser francês".

I Mandamento: Homem nenhum será, contra a sua vontade, forçado a trocar lâmpadas, ou abrir garrafas e pequenos potes.

II Mand: A propriedade não é um roubo, salvo na orla marítima e durante a temporada.

III Mand: Vegetarianos são a ralé da cadeia alimentar, e portanto não gozam de direito algum. Os hemivegetarianos estão fora.

IV Mand: O despotismo convém aos países quentes, a barbárie aos frios, e a democracia aos Estados pequenos e pobres.

V Mand: Das garantias fundamentais:
- merenda;
- toda religião é verdadeira, exceto o vodu;
- réu nenhum será submetido a siglas ou fogos-de-artifício;
- a imprensada é da defesa;
- não existe guerra ruim;
- hollywood;
- buy viagra online;

E assim vai.

Ainda não sei se entrego o contrato à Viação Nações Unidas ou se escondo no meu necromanicon, e o atiro nas cataratas do Niágara dentro de um barril. E nada me é mais saudoso que as canções da dupla Kant e Hans Kelsen, cheias de princípios bonitos para nos guiar.

sábado, 11 de setembro de 2004

Um mexicano andando de bicicleta

Ok, essa todos conhecem. Indago então o que seria a figura a seguir:



Não, não são dois chineses numa bicicleta só. Direciono meus pêsames a quem respondeu uma ervilha defronte ao lago, ou congênere. Tão certamente quanto os cometas prenunciaram a morte de várias figuras egrégias ao longo dos centênios, esta foi a primeira piada de ervilha da história. A singela piada que anunciou, que deflagrou a morte do espírito humano. Ou pelo menos a primeira de uma grande e tosca série por que foi o mundo acometido ao término do século passado.


ervilha andando de skate

De uma pequena, inocente e inventiva brincadeira, em que tínhamos mexicanos de bicicleta, sanduíches de ovo, a visão da minhoca antes de ser engolida por um pássaro, navios chegando tarde demais para salvar uma bruxa se afogando, passamos às piadas de ervilha, e daí para as de ponto.

Benza Deus que estivéssemos no século XX, tempo da moda, do mutável e das revistas de super-heróis mutantes! Tais piadas alastraram-se rapidamente, contudo também velozmente seu fim chegou. Se fosse na idade média, seriam pelo menos quatro ou seis séculos de piadas de pontos.

O lado ruim da modernidade é que eu faria uma piada de pontos sobre as torres gêmeas, e até uma figura enigmática, mas sou frívolo e não quero soar anacrônico. Além disso, tenho mais o que fazer, em vez de me sentir nostálgico. A começar por ir ao Procordis, que meu braço está dormente, o peito doendo (do lado direito, mas está), não consigo respirar direito, e me impressiono facilmente com o que vejo na CNN. Até qualquer dia.

You can't hold the truck

A grande vítima do atentado em Beslan, a meu ver, é a indústria têxtil russa. Nunca, em toda minha experiência terrena, vi roupas-de-baixo tão feias, que se aproximassem de tal feiúra! O horror, o horror... da cor (sugestiva) à textura, passando pelo desenho, tudo ali é reprovável. Seria a escola apenas fachada para alguma indústria? Céus, nem em pescaria de festa junina ganhei cuecas tão feias. Não permita Deus que eu morra, trajando aquilo lá. Fora bolinadores de criancinhas socialistas!