ou assim sentenciava Apollonius de Tyana, em "As Sete Faces do dr. Lao"
"Amanhã será como hoje, e o dia seguinte como ao que ontem precedeu", disse Apollonius. "Vejo seus dias restantes, cada, como quietas e tediosas coleções de horas. Você não viajará mais a lugar algum. Não pensará novos pensamentos. Não experimentará qualquer nova paixão. Mais velha se tornará, porém não mais sábia. Mais dura, entretanto não mais dignificada. Sem filhos está, e sem filhos permanecerá. Daquela flexibilidade que uma vez possuiu na juventude, daquela estranha simplicidade que uma vez atraiu alguns poucos homens a ti, nada perdura, e tampouco recuperará qualquer um deles uma vez mais. As pessoas falarão e sairão com você por piedade, e não mais por que tenha qualquer coisa a oferecer-lhes. Você já observou um daqueles sabugos velhos, tornando-se marrom, morrendo, mas se recusando a cair, no qual os pássaros pousam aqui e ali, mal sabendo de que se trata? Isso é você. Eu não consigo imaginar qual seja seu lugar na Economia da vida... um ser vivo deve criar ou destruir, de acordo com sua capacidade e capricho, mas você, você não faz nenhum dos dois. Você vive apenas sonhando sobre as coisas maravilhosas que gostaria que lhe acontecessem, mas que nunca ocorrem; e fica devaneando sobre por que as vidas jovens próximas, que ocasionalmente repreende por algum capricho fantástico, nunca a escutam, e parecem fugir à sua aparição... Quando você morrer, será enterrada e esquecida, e isso é tudo. Os papa-defuntos irão enclausurá-la numa casca à prova de vermes, selando para a eternidade a carne de sua inutilidade. E para tudo de bem ou mal, criação ou destruição, que sua vida pudesse ter realizado, você poderia muito bem ter jamais existido. Eu não vejo propósito em tal vida. Só consigo enxergá-la como vulgar, um chocante desperdício."
"Pensei que havia dito que não avaliasse vidas", irrompeu a senhora Cassan.
"Eu não estou julgando, somente divagando. Neste momento, você sonha com petróleo, a ser encontrado em seus vinte acres de terra no Novo México. Não há petróleo lá. Você sonha com algum homem alto, moreno, bonito, vindo lhe galantear. Não há homem vindo, moreno, alto, ou qualquer outro. E ainda assim você sonha, apesar de tudo que lhe digo; sonha através da sua pequena ciranda de horas, costurando, balançando-se, futricando e sonhando, e o mundo gira e gira e gira. Crianças nascem, crescem, realizam-se, adoecem e morrem; você senta-se e costura, balança-se, fofoqueia e segue existindo. E se você tivesse uma voz no governo, e pessoas em número suficiente votassem da mesma forma que votas; isso poderia mudar a face do mundo. Existe algo de terrível em tal pensamento; mas a sua opinião em qualquer assunto no mundo é absolutamente desprezível. Não, não posso imaginar razão para sua existência."
"Eu não o paguei para ficar divagando a meu respeito. Apenas diga meu futuro e pronto."
"Eu estive lhe dizendo o seu futuro! Por que não escuta? Você deseja saber quantas vezes mais vai comer alface ou ovos cozidos? Devo eu enumerar as instâncias em que dará 'bom-dia' a seus vizinhos através da cerca. Preciso eu dizer quantas vezes mais estocará comida, irá à Igreja ou ao Cinema? Devo eu fazer uma lista mostrando quantos galões mais de água ferverá em seu futuro para fazer chá, quantas combinações mais de cartas vir-lhe-ão enquanto joga bridge, quão freqüentemente seu telefone tocará em seus dias restantes? Você quer saber quantas vezes mais você maldirá o entregador de jornais por não deixar seu exemplar no local em que menos lhe aborrece? Devo eu contar-lhe quantas vezes mais ficará chateada com o tempo por chover ou deixar de chover de acordo com seus anseios? Precisarei eu computar as libras e centavos que economizará barganhando em bazares e mercearias? Você quer saber tudo isso? Porque este é o seu futuro: fazendo as mesmas pequenas coisas fúteis que você fez nos últimos cinqüenta e oito anos. Você encarará uma repetição do seu passado, uma recapitulação dos dígitos da máquina de adicionar de seus dias. Salvo, talvez, por um brilhante numeral: houve um tipo amor em seu passado; não há nenhum no futuro."
"Bem... devo dizer que você é o mais estranho vidente (fortuneteller) que já visitei."
"Meu infortúnio é ser capaz apenas de dizer a verdade."
terça-feira, 31 de dezembro de 2002
sábado, 23 de novembro de 2002
Quantifixadores
Tenho redigido numerosas futilidades, contudo peco: ao se proferir o inútil, são mister classe, requinte, cultura, ininteligibilidade. Isso posto: os quantificadores utilizados no cálculo de predicados são ilógicos.
São ilógicos porque, por exemplo, enquanto o quantificador universal*, o para todo x de X, devesse significar "x1 e x2 e x3 e x4 e... e xn e ...", no cálculo de predicados significa "para um x qualquer fixado", ou seja: xn -- para fazer as provas, fixa-se um x e se opera algoritmicamente até o infinito para encontrar, por exemplo, um yn' que satisfaça a uma condição - na verdade, o "n" pode, e deveria, ser infinito, mas não faz diferença porque sempre haveria um infinito maior para n' etc, a coisa é bem complicada, e há instâncias e instâncias...
(*) há também o quantificador existencial, o existe x de X, aquele E ao contrário, que seria "x1 ou x2 ou x3 ou... ou xn ou..." -- x são os elementos, X o conjunto dos x; óbvio, mas não custava dizer, já que alguns amigos confundem controle motor e controle remoto.
Uma fantasia sem justificativa, criada para se "provar" coisas -- se o método fosse lógico realmente, e se permitisse que o para todo operasse não fixando, mas algoritmicamente, ou não se provaria nada, ou extrair-se-iam paradoxos. Mais um erro histórico de tantos que a matemática tradicional é plena.
Juro que diria algo útil ao final, mas esqueci. Sei lá, depois escrevo sobre o problema do caixeiro-viajante e P=NP?, ou a respeito da inconstante de Hubble e o balde de Newton, ou divagações concernentes aos estudos demonológicos a que Kurt Gödel dedicou seus últimos vinte anos de existência.
Gostaria de ter sido mais matemático acima, seria mais compreensível, mais amplo, mais específico. Preciso aprender como digitar os símbolos qualquer dia... e fiquemos com mais uma citação do Newton da Costa:
Eu tô cansado de ver manuais de lógica idiotas, que pegam um raciocínio assim: “Todo homem é mortal, tralalá, tralalá, e traduzem em símbolos lógicos; isso é uma burrice; isso é uma idiotice! Vocês, normalmente, raciocinam na linguagem comum, e quando passam isso pra linguagem simbólica, vocês estão dizendo, por exemplo, é que a teoria da gramática de Montague não serve pra nada. Se vocês supuserem que a linguagem formalizada da lógica reflete exatamente o raciocínio comum de vocês, estarão cometendo uma grande asnice. Lógica não é estudo de raciocínio, isso é lógica pra imbecil! Eu não teria dedicado minha vida inteira à lógica, se lógica fosse isso... Pra mim, a lógica só está remotamente ligada com raciocínio, assim como mecânica dos corpos rígidos está indiretamente relacionada com Construção Civil. Só posso dizer que lógica é ciência do raciocínio com uma restrição: eu não sou idiota.
São ilógicos porque, por exemplo, enquanto o quantificador universal*, o para todo x de X, devesse significar "x1 e x2 e x3 e x4 e... e xn e ...", no cálculo de predicados significa "para um x qualquer fixado", ou seja: xn -- para fazer as provas, fixa-se um x e se opera algoritmicamente até o infinito para encontrar, por exemplo, um yn' que satisfaça a uma condição - na verdade, o "n" pode, e deveria, ser infinito, mas não faz diferença porque sempre haveria um infinito maior para n' etc, a coisa é bem complicada, e há instâncias e instâncias...
(*) há também o quantificador existencial, o existe x de X, aquele E ao contrário, que seria "x1 ou x2 ou x3 ou... ou xn ou..." -- x são os elementos, X o conjunto dos x; óbvio, mas não custava dizer, já que alguns amigos confundem controle motor e controle remoto.
Uma fantasia sem justificativa, criada para se "provar" coisas -- se o método fosse lógico realmente, e se permitisse que o para todo operasse não fixando, mas algoritmicamente, ou não se provaria nada, ou extrair-se-iam paradoxos. Mais um erro histórico de tantos que a matemática tradicional é plena.
Juro que diria algo útil ao final, mas esqueci. Sei lá, depois escrevo sobre o problema do caixeiro-viajante e P=NP?, ou a respeito da inconstante de Hubble e o balde de Newton, ou divagações concernentes aos estudos demonológicos a que Kurt Gödel dedicou seus últimos vinte anos de existência.
Gostaria de ter sido mais matemático acima, seria mais compreensível, mais amplo, mais específico. Preciso aprender como digitar os símbolos qualquer dia... e fiquemos com mais uma citação do Newton da Costa:
Eu tô cansado de ver manuais de lógica idiotas, que pegam um raciocínio assim: “Todo homem é mortal, tralalá, tralalá, e traduzem em símbolos lógicos; isso é uma burrice; isso é uma idiotice! Vocês, normalmente, raciocinam na linguagem comum, e quando passam isso pra linguagem simbólica, vocês estão dizendo, por exemplo, é que a teoria da gramática de Montague não serve pra nada. Se vocês supuserem que a linguagem formalizada da lógica reflete exatamente o raciocínio comum de vocês, estarão cometendo uma grande asnice. Lógica não é estudo de raciocínio, isso é lógica pra imbecil! Eu não teria dedicado minha vida inteira à lógica, se lógica fosse isso... Pra mim, a lógica só está remotamente ligada com raciocínio, assim como mecânica dos corpos rígidos está indiretamente relacionada com Construção Civil. Só posso dizer que lógica é ciência do raciocínio com uma restrição: eu não sou idiota.
sábado, 9 de novembro de 2002
O Mundo Está Melhorando
Na época de édipo, neguinho matava o pai, comia a mãe e ainda virava rei. Depois, punha culpa em algum oráculo ridículo, e furava um ou dois olhos, só pra tentar enganar o povo...
sexta-feira, 25 de outubro de 2002
Figurinhas Carimbadas da História
O espanhol Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Crispin Crispiano de la Santisima Trinidad Ruyz y Picasso (1881-1973) foi o mais prolífico de todos os pintores do mundo, em uma carreira que durou 78 anos. Sua obra completa totaliza cerca de 13.500 pinturas e desenhos, 100 mil gravuras, 34 mil ilustrações de livros e 300 esculturas ou cerâmicas. A totalidade de suas obras foi avaliada em US$ 800 milhões. E isso tudo sem contar os cardápios.
Há, não sei por quê, muitas anedotas vulgares a respeito do sujeito, repetidas como se constituíssem o ápice do humor universal -- e talvez sejam. De qualquer modo, vamos a uma história verídica: Picasso e Matisse nutriam grande rivalidade, mas eis que, Matisse meio doente, ambos mais envelhecidos, já amigos, Picasso vai visitá-lo, e leva junto seu filhinho, de quatro anos. Passam uma bela tarde na casa do francês, e, chegando em casa, o filho se vira pra mãe todo animado: "mãe, mãe, hoje eu e papai fomos visitar um pintor, e falamos com ele". Picasso olha atravessado pro moleque, e a mãe em cima: "mas anjinho, por que esse escândalo?, papai também é pintor", e o filho: "não, era um pintor de verdade, papai só faz esses rabiscos..."
Bom, é provável que haja muitos erros na história, mas é mais ou menos por aí -- escutei o relato há já um bom tempo, e estava caindo de bêbado havia pelo menos três ou quatro dias, pra dizer o mínimo. E muito mais interessante é saber que o pai de Rorschach foi um pintor modernista medíocre...
Há uma outra história, esta remotamente ligada ao pintor espanhol, porém inesquecível, ocorreu em um curso numa universidade pública. A animalesa que ministrava as aulas veio com a proposição: "tudo que tem valor de troca não é arte". Citaram inúmeras obras: músicas, esculturas, telas, poesias, e ela na mesma tecla, sem titubear: "isso não é arte, tinha valor de troca"; até que um sujeito, cansado, exaltou-se "E Guernica?". "Guernica também não é arte; Picasso era um charlatão". "E a senhora é o quê, caramba?" É surpreendente que quase metade da turma tenha aguentado o curso até o final. Mas terminemos com algumas citações:
Un pintor es un hombre que pinta lo que vende. Un artista, en cambio, es un hombre que vende lo que pinta.
Aunque sólo existiera una verdad única, no se podría pintar cien cuadros sobre el mismo tema.
"Pago sempre em cheque. As pessoas preferem guardá-lo a descontá-lo."
"Não existe arte abstrata. Você sempre precisa começar com algo. Depois, removem-se todos os traços de realidade."
Há, não sei por quê, muitas anedotas vulgares a respeito do sujeito, repetidas como se constituíssem o ápice do humor universal -- e talvez sejam. De qualquer modo, vamos a uma história verídica: Picasso e Matisse nutriam grande rivalidade, mas eis que, Matisse meio doente, ambos mais envelhecidos, já amigos, Picasso vai visitá-lo, e leva junto seu filhinho, de quatro anos. Passam uma bela tarde na casa do francês, e, chegando em casa, o filho se vira pra mãe todo animado: "mãe, mãe, hoje eu e papai fomos visitar um pintor, e falamos com ele". Picasso olha atravessado pro moleque, e a mãe em cima: "mas anjinho, por que esse escândalo?, papai também é pintor", e o filho: "não, era um pintor de verdade, papai só faz esses rabiscos..."
Bom, é provável que haja muitos erros na história, mas é mais ou menos por aí -- escutei o relato há já um bom tempo, e estava caindo de bêbado havia pelo menos três ou quatro dias, pra dizer o mínimo. E muito mais interessante é saber que o pai de Rorschach foi um pintor modernista medíocre...
Há uma outra história, esta remotamente ligada ao pintor espanhol, porém inesquecível, ocorreu em um curso numa universidade pública. A animalesa que ministrava as aulas veio com a proposição: "tudo que tem valor de troca não é arte". Citaram inúmeras obras: músicas, esculturas, telas, poesias, e ela na mesma tecla, sem titubear: "isso não é arte, tinha valor de troca"; até que um sujeito, cansado, exaltou-se "E Guernica?". "Guernica também não é arte; Picasso era um charlatão". "E a senhora é o quê, caramba?" É surpreendente que quase metade da turma tenha aguentado o curso até o final. Mas terminemos com algumas citações:
Un pintor es un hombre que pinta lo que vende. Un artista, en cambio, es un hombre que vende lo que pinta.
Aunque sólo existiera una verdad única, no se podría pintar cien cuadros sobre el mismo tema.
"Pago sempre em cheque. As pessoas preferem guardá-lo a descontá-lo."
"Não existe arte abstrata. Você sempre precisa começar com algo. Depois, removem-se todos os traços de realidade."
quinta-feira, 17 de outubro de 2002
W. Shakspere
Muito se ouve falar de William Shakespeare, e seu grande LEGADO À HUMANIDADE, e falam de Hamlet, e de MacBeth, e dos Sonetos etc. Contudo, do trecho mais memorável ninguém diz nada, e é justamente o que transcrevo. Direto do testamento do cisne de Avon:
"Item: I gyve unto my wief my second best bed, with the furniture."
Quer dizer: à humanidade, uma obra inigualável; à esposa, sua segunda melhor cama... with the furniture! Que timing, e ainda há quem seu gênio conteste...
"Item: I gyve unto my wief my second best bed, with the furniture."
Quer dizer: à humanidade, uma obra inigualável; à esposa, sua segunda melhor cama... with the furniture! Que timing, e ainda há quem seu gênio conteste...
terça-feira, 15 de outubro de 2002
R E T O R N E T E R N O
A pedra angular de toda a filosofia de Nietzsche foi o trocadilho.
Há quem assevere as entrelinhas sejam mais importantes que os objetos tratados em suas sentenças, que sequer seriam objetos; há quem mencione metáforas fundamentais, e subtítulos, e uma vaca colorida. Enfim: há um bom material...
Indo contra minha natureza, entretanto, não zombarei do estilista por trás do bigode e da camisa-de-força. Devido à sua prolixidade, os resumões que nos remetem aos trechos principais, com interpretações e comentários diversos, já o liquidaram; transformaram-no mesmo em ídolo e profeta decadente. Só não superou ainda o Che nas Humanas devido à sua deselegância, além daquela história de até boa idade o brinquedo preferido da irmã serem suas gônadas...
Há quem assevere as entrelinhas sejam mais importantes que os objetos tratados em suas sentenças, que sequer seriam objetos; há quem mencione metáforas fundamentais, e subtítulos, e uma vaca colorida. Enfim: há um bom material...
Indo contra minha natureza, entretanto, não zombarei do estilista por trás do bigode e da camisa-de-força. Devido à sua prolixidade, os resumões que nos remetem aos trechos principais, com interpretações e comentários diversos, já o liquidaram; transformaram-no mesmo em ídolo e profeta decadente. Só não superou ainda o Che nas Humanas devido à sua deselegância, além daquela história de até boa idade o brinquedo preferido da irmã serem suas gônadas...
segunda-feira, 14 de outubro de 2002
quarta-feira, 9 de outubro de 2002
Resposta de Sauron
Recebi um e-mail de meu amigo Sauron. Milorde Sauron é o cara mais sábio que já conheci, e sempre que me esqueço de ajoelhar e dizer isso em sua presença, Sauron esfola minha rótula direita e escarra. Uma vez, arremessou-me de peito e cara na seção de cactos do Jardim Botânico.
Mas milorde é muito piedoso para com minhas falhas. Disse-lhe que as eleições mostravam alguns sinais de que a crença na democracia ainda era possível. A resposta veio junto com um vírus que quase destruiu meu tocador de CDs.
"Monte de asnice e falsa analogia. Porém, antes de mais nada, anátema, procure separar seus parágrafos com linhas duplas em branco, para facilitar a leitura -- sim, é uma ordem, hápax da dislexia; e evite usar o termo 'galera' quando referir-se a mim, não sou remador escravo de embarcações idiotas.
Pois bem, vamos à Verdade: a única qualidade da democracia é evitar déspotas completamente debilóides ou insanos, que desejem apenas seu bem e estejam pouco se fodendo para a nação. De resto, é uma ineficiência só... Entretanto, como, segundo os pseudopsicólogos, o poder corrompe, não seria lá muito fácil obter déspotas esclarecidos -- não no sentido original, mas literal da expressão --, e fica parecendo que a democracia seja um grande negócio.
Contudo, em nosso país, até os tiranos são de meia-tigela. Não dá pra comparar nossos Médicis, Geisels e Figueiredos a um Idi Amin Dadá ou a um Stálin. É outro nível... além disso, os generais daqui costumam ficar no poder menos tempo que certos presidentes eleitos...
Portanto, seu boçal, a melhor solução para o Brasil chama-se Despotismo Esclarecido. Pode-se muito bem elaborar uma constituição para que o tirano não seja uma divindade, sendo forçado a obter certos avanços, não podendo matar quem bem desejar, esse tipo de bobagem que atrapalharia a gestão. Claro que se o sujeito for bom e sábio, não precisaremos desses dispositivos legais, mas, caso seja um Calígula, teremos nossa constituição para nos livrarmos da mala.
Essa é a minha opinião, e a única opinião possível a qualquer pessoa inteligente.
E tire o cavalinho da precipitação, que além de meu olor ser melhor que o teu, o candidato a imperador já sou eu. Toda morte será pequena comparada à infligida por minhas justas e infinitas mãos. Sem contar as mordidas de jegue de meus servos."
Mas milorde é muito piedoso para com minhas falhas. Disse-lhe que as eleições mostravam alguns sinais de que a crença na democracia ainda era possível. A resposta veio junto com um vírus que quase destruiu meu tocador de CDs.
"Monte de asnice e falsa analogia. Porém, antes de mais nada, anátema, procure separar seus parágrafos com linhas duplas em branco, para facilitar a leitura -- sim, é uma ordem, hápax da dislexia; e evite usar o termo 'galera' quando referir-se a mim, não sou remador escravo de embarcações idiotas.
Pois bem, vamos à Verdade: a única qualidade da democracia é evitar déspotas completamente debilóides ou insanos, que desejem apenas seu bem e estejam pouco se fodendo para a nação. De resto, é uma ineficiência só... Entretanto, como, segundo os pseudopsicólogos, o poder corrompe, não seria lá muito fácil obter déspotas esclarecidos -- não no sentido original, mas literal da expressão --, e fica parecendo que a democracia seja um grande negócio.
Contudo, em nosso país, até os tiranos são de meia-tigela. Não dá pra comparar nossos Médicis, Geisels e Figueiredos a um Idi Amin Dadá ou a um Stálin. É outro nível... além disso, os generais daqui costumam ficar no poder menos tempo que certos presidentes eleitos...
Portanto, seu boçal, a melhor solução para o Brasil chama-se Despotismo Esclarecido. Pode-se muito bem elaborar uma constituição para que o tirano não seja uma divindade, sendo forçado a obter certos avanços, não podendo matar quem bem desejar, esse tipo de bobagem que atrapalharia a gestão. Claro que se o sujeito for bom e sábio, não precisaremos desses dispositivos legais, mas, caso seja um Calígula, teremos nossa constituição para nos livrarmos da mala.
Essa é a minha opinião, e a única opinião possível a qualquer pessoa inteligente.
E tire o cavalinho da precipitação, que além de meu olor ser melhor que o teu, o candidato a imperador já sou eu. Toda morte será pequena comparada à infligida por minhas justas e infinitas mãos. Sem contar as mordidas de jegue de meus servos."
domingo, 6 de outubro de 2002
Às margens da baía de Guanabara, escorei-me e vomitei
Trajando luto, anulei meus votos utópica e conscientemente. Preferia ter anulado os candidatos, mas não se pode ter tudo... saí da seção passando mal, caminhei pela praia, só pude beber quando cheguei em casa. Há pessoas gritando pelas ruas, mas não há muito a comemorar.
60-70% do cérebro é água; isso explica bastante.
Da próxima vez, se quiserem meu voto, paguem.
60-70% do cérebro é água; isso explica bastante.
Da próxima vez, se quiserem meu voto, paguem.
sexta-feira, 4 de outubro de 2002
0/0
Bem, todo mundo sabe conhece a adição relativística de velocidades, mas nunca é demais lembrar aquele caso especial clássico. Se duas partículas têm velocidades com a mesma direção segundo um Referencial Inercial, chamando-se de v1 e v2 as velocidades de tais partículas segundo este referencial, segundo cada uma das partículas, a outra estará dotada de velocidade com módulo igual a
v = (v1-v2) / {1-[(v1.v2) /c^2)]}
Existe um problema clássico muito citado, porque segundo o velho Albo, foi o que o levou a pensar na teoria da relatividade restrita, trata-se do gedanken em que o jovem Einstein perseguia uma onda de luz. Diz-se que ele a veria exatamente como em qualquer outra situação, i.e.: com velocidade = c, mas, se pusermos na fórmula v1 = v2 = c, teremos v = 0/0. Como este seria o único caso em que a fórmula nos dá tal resultado, em todos os outros sendo c -- inclusive para as partículas à velocidade da luz, porém com sentidos opostos --, isso é por vezes ignorado, e diz-se que o 0/0 valeria c.
O problema é que não é esse o caso, e bastará ver a dedução da fórmula para se notar que para um referencial que esteja à velocidade da luz, a velocidade de um outro objeto qualquer será a indefinição 0/0 -- pode-se l’Hospitar à vontade.
Ou seja: quando o frame está em MRU igual a "c", quando o frame é um, digamos, um photon, não vale a simplificação... é claro que haveria ainda o problema da dilatação temporal ser originária da QM, e tal, mas não aí já são outros quinhentos... na verdade, isso tudo importa muito pouca coisa, se é que importa.
Adendo:
Permitam-me deduzir a coisa a partir do caso de partícula e sistema de coordenadas (no mesmo sentido), diretamente das transformações usais para moção unidirecional dum sistema S’ [fórmulas 8.1 e 8.2 do Tolman]
Defina-se x como uma partícula; u(x), a velocidade de x num referencial inercial; u'(x) , a velocidade de x num outro referencial inercial com velocidade v segundo o primeiro referencial. Calculemos então u'(x). Para simplificar a notação, usarei as velocidades reduzidas, i.e.: v = v/c, c = c/c = 1 etc.
u(x)=dx/dt
u'(x) = dx'/dt' = dx'/dt . dt/dt' =>
u'(x) ={(dx - v.dt) / [dt.raiz(1-v^2)]}.{[raiz (1-v^2)] / [1- (v.dx/dt)]}<=>
u'(x) ={(dx - v.dt) / [1- (v.dx/dt)]}.{[raiz (1-v^2)] / [dt.raiz(1-v^2)]}<=>
u'(x) = {(u(x)-v) / [1- (u(x).v)]} . {[raiz(1-v^2)] / [raiz(1-(v^2)]}
v = (v1-v2) / {1-[(v1.v2) /c^2)]}
Existe um problema clássico muito citado, porque segundo o velho Albo, foi o que o levou a pensar na teoria da relatividade restrita, trata-se do gedanken em que o jovem Einstein perseguia uma onda de luz. Diz-se que ele a veria exatamente como em qualquer outra situação, i.e.: com velocidade = c, mas, se pusermos na fórmula v1 = v2 = c, teremos v = 0/0. Como este seria o único caso em que a fórmula nos dá tal resultado, em todos os outros sendo c -- inclusive para as partículas à velocidade da luz, porém com sentidos opostos --, isso é por vezes ignorado, e diz-se que o 0/0 valeria c.
O problema é que não é esse o caso, e bastará ver a dedução da fórmula para se notar que para um referencial que esteja à velocidade da luz, a velocidade de um outro objeto qualquer será a indefinição 0/0 -- pode-se l’Hospitar à vontade.
Ou seja: quando o frame está em MRU igual a "c", quando o frame é um, digamos, um photon, não vale a simplificação... é claro que haveria ainda o problema da dilatação temporal ser originária da QM, e tal, mas não aí já são outros quinhentos... na verdade, isso tudo importa muito pouca coisa, se é que importa.
Adendo:
Permitam-me deduzir a coisa a partir do caso de partícula e sistema de coordenadas (no mesmo sentido), diretamente das transformações usais para moção unidirecional dum sistema S’ [fórmulas 8.1 e 8.2 do Tolman]
Defina-se x como uma partícula; u(x), a velocidade de x num referencial inercial; u'(x) , a velocidade de x num outro referencial inercial com velocidade v segundo o primeiro referencial. Calculemos então u'(x). Para simplificar a notação, usarei as velocidades reduzidas, i.e.: v = v/c, c = c/c = 1 etc.
u(x)=dx/dt
u'(x) = dx'/dt' = dx'/dt . dt/dt' =>
u'(x) ={(dx - v.dt) / [dt.raiz(1-v^2)]}.{[raiz (1-v^2)] / [1- (v.dx/dt)]}<=>
u'(x) ={(dx - v.dt) / [1- (v.dx/dt)]}.{[raiz (1-v^2)] / [dt.raiz(1-v^2)]}<=>
u'(x) = {(u(x)-v) / [1- (u(x).v)]} . {[raiz(1-v^2)] / [raiz(1-(v^2)]}
domingo, 22 de setembro de 2002
Pensamentos Miocardíacos
Há uns anos, quando Havana era capital de um país, e não só marca de charuto, havia aquela musiquinha: "O Japão vai lançar um foguete, Cuba também vai lançar..."; Cuba é lixão, mas o Japão é outra porcaria: as pessoas moram em caixas-de-fósforo, têm suas crianças perdidas na rede metroviária por anos, são acometidas o tempo inteiro por furacões, tsunamis, terremotos, monstros alienígenas, e ainda adoram o deus-empresa. Não é à toa que lá existe o maior comércio sexual do mundo.
domingo, 18 de agosto de 2002
Paradoxo da Antiga Matemática
Um número racional (positivo) é a/b, em que a e b pertençam a N. O paradoxo é: existem mais racionais entre 0 e 1 ou no resto da reta? Como para cada a/b <1 existe um b/a >1 etc, o número seria o mesmo. Galileu, muito observador, notou que havia uma bijeção entre os naturais e os quadrados ({1,2,3,...,n,...}vs. {1^2, 2^2, 3^2,..., n^2, ...}).
Cantor, por causa dessas e outras, inventou uma teoria de infinito, aquela história dos cardinais, e, após um pouco de inquisição, a coisa pegou. Remonta a ele, inclusive, aquela célebre prova da bijeção entre N e Q; que não passa de teologia, claro.
Se o número de naturais for chamado de x, o número de elementos positivos dos racionais (tradicionais) é superior a (x^2).lnx, e inferior a (x^3)/y, em que y é um número natural positivo, possivelmente infinito, que não tive meios de calcular nem paciência para estimar... talvez algo como x^3/ln(ln(x)).
"There is a concept which corrupts and upsets all others. I refer not to Evil, whose limited realm is that of ethics; I refer to the infinite."(J.L.Borges)
Cantor, por causa dessas e outras, inventou uma teoria de infinito, aquela história dos cardinais, e, após um pouco de inquisição, a coisa pegou. Remonta a ele, inclusive, aquela célebre prova da bijeção entre N e Q; que não passa de teologia, claro.
Se o número de naturais for chamado de x, o número de elementos positivos dos racionais (tradicionais) é superior a (x^2).lnx, e inferior a (x^3)/y, em que y é um número natural positivo, possivelmente infinito, que não tive meios de calcular nem paciência para estimar... talvez algo como x^3/ln(ln(x)).
"There is a concept which corrupts and upsets all others. I refer not to Evil, whose limited realm is that of ethics; I refer to the infinite."(J.L.Borges)
segunda-feira, 5 de agosto de 2002
Misantropia (x)
Quando ingressei na "Medicina-USP", no sábado anterior ao início das aulas houve uma excursão para reconhecimento da Universidade, a fim de encetar a integração dos calouros. No mesmo dia, havia uma prova de Patologia do terceiro ano, e três idiotas a caminho do exame pararam pra tirar um sarro, olho no olho:
_ De onde você é, bixo?
__ Minas.
_ Um mineiro, hein? (rindo pros outros) Mas de que lugar de Minas?
__ Governador Valadares.
_ Governador Valadares? Governador Valadares? E por que cê tá aqui na USP? Por que não foi lá pros Estados Unidos?
__ Porque eu sou medíocre.
Sem resposta. Foi bem engraçado; ainda mais considerando-se que sou natural de Petrópolis.
_ De onde você é, bixo?
__ Minas.
_ Um mineiro, hein? (rindo pros outros) Mas de que lugar de Minas?
__ Governador Valadares.
_ Governador Valadares? Governador Valadares? E por que cê tá aqui na USP? Por que não foi lá pros Estados Unidos?
__ Porque eu sou medíocre.
Sem resposta. Foi bem engraçado; ainda mais considerando-se que sou natural de Petrópolis.
terça-feira, 23 de julho de 2002
A Solução é Simples
O Brasil precisa de mudança, e é por isso que preparo minhas malas. Mas sério, a solução existe e é simples: basta que todos nos unamos, mas que nos unamos contra o Brasil.
Se todos os brasileiros começassem a especular forte contra o nosso país -- algo que comprovadamente dá dinheiro --, quebraríamos o Estado, e ainda sairíamos com uns bons trocados.
Se todos os brasileiros começassem a especular forte contra o nosso país -- algo que comprovadamente dá dinheiro --, quebraríamos o Estado, e ainda sairíamos com uns bons trocados.
domingo, 21 de julho de 2002
terça-feira, 2 de julho de 2002
Gedankenexperiment
"Experiência de pensamento", termo cunhado pelo velho Albo, e um dos doze ou treze que um físico conhece em alemão. Mas, na verdade, "gedanken" está mais é para "passatempo", um probleminha para se ficar pensando, repensando e depois complicando. Digo-o porque o físico é um sujeito que trabalha, sempre que for possível, por motivos estéticos e por pura preguiça, com os problemas em sua forma mais simples possível. Um exemplo bobo seria:
Considera um vagão com duas lâmpadas em extremidades opostas e com um observador no centro. Suponha que o observador veja as duas lâmpadas com o mesmo tamanho, mesma intensidade. Fosse uma mesa, ou tábua, onde estivessem fixas tais lâmpadas, poderia girá-los à vontade, que a intensidade ficaria inalterada (salvo durante a rotação). Ao vagão em que isso ocorra, e a todo sistema de coordenadas que a ele estiver parado, denominaremos “Sistema em Repouso”. O que ocorre, porém, num vagão dotado de velocidade não nula com relação ao citado?
Pois bem, como a velocidade da luz não depende da fonte, no caso extremo (velocidade com mesma direção do segmento de reta formado pelas lâmpadas), a luz de uma demoraria r’/(c+v) para uma extremidade e r’/(c-v) para a outra (r’ é o raio contraído do vagão) para o sistema em repouso. Ou seja: para um observador no centro do vagão, a luz emitida por uma das extremidades chegará antes que a doutra e, por isso, uma das lâmpadas parecerá maior. Se, em vez de nas extremidades, estivessem fixas a uma mesa dentro do vagão, fazendo com que esta girasse cento e oitenta graus, a situação final seria igual; ou seja: mesmo para um observado interno, não são as lâmpadas a possuir diferentes tamanhos, mas o vagão é que estaria dotado de movimento.
É claro, haverá sempre quem assevere o contrário; e a intenção é essa, aí é que a coisa fica divertida... e quando mencionam a Geral, sempre há muita alegria.
Considera um vagão com duas lâmpadas em extremidades opostas e com um observador no centro. Suponha que o observador veja as duas lâmpadas com o mesmo tamanho, mesma intensidade. Fosse uma mesa, ou tábua, onde estivessem fixas tais lâmpadas, poderia girá-los à vontade, que a intensidade ficaria inalterada (salvo durante a rotação). Ao vagão em que isso ocorra, e a todo sistema de coordenadas que a ele estiver parado, denominaremos “Sistema em Repouso”. O que ocorre, porém, num vagão dotado de velocidade não nula com relação ao citado?
Pois bem, como a velocidade da luz não depende da fonte, no caso extremo (velocidade com mesma direção do segmento de reta formado pelas lâmpadas), a luz de uma demoraria r’/(c+v) para uma extremidade e r’/(c-v) para a outra (r’ é o raio contraído do vagão) para o sistema em repouso. Ou seja: para um observador no centro do vagão, a luz emitida por uma das extremidades chegará antes que a doutra e, por isso, uma das lâmpadas parecerá maior. Se, em vez de nas extremidades, estivessem fixas a uma mesa dentro do vagão, fazendo com que esta girasse cento e oitenta graus, a situação final seria igual; ou seja: mesmo para um observado interno, não são as lâmpadas a possuir diferentes tamanhos, mas o vagão é que estaria dotado de movimento.
É claro, haverá sempre quem assevere o contrário; e a intenção é essa, aí é que a coisa fica divertida... e quando mencionam a Geral, sempre há muita alegria.
sexta-feira, 7 de junho de 2002
domingo, 2 de junho de 2002
Uniforme de Fórum
O uso de terno nos fóruns, mais que tradição, é uma tentativa vã de fazer aquilo parecer sério...
Curioso é que terno, o próprio nome diz, são três peças: paletó, calça e colete. Aqui, já que o colete é quase sempre um desconforto, uns desculpam-se dizendo que a gravata é a terceira peça... aliás, a coisa toda é ridícula: paletot era a jaqueta campesina lá na França, e gravata refere-se a uma tira de pano que usavam os croatas (hrvatas) para identificarem-se durante certa guerra maltrapilha de séculos passados.
Escuto Ricardinho convocado... a coerência...
Tornando ao terno enquanto seriedade, porém, é impossível deixar de pensar em uma série de outros exemplos, tais como os capelos, as perucas judiciais, a barbicha de rabinos, hábitos, fardões e demais trajes para cerimônias em geral, além daquele sobretudo dos gângsteres. E óculos enquanto sinal de inteligência, claro, problema sério de visão.
Curioso é que terno, o próprio nome diz, são três peças: paletó, calça e colete. Aqui, já que o colete é quase sempre um desconforto, uns desculpam-se dizendo que a gravata é a terceira peça... aliás, a coisa toda é ridícula: paletot era a jaqueta campesina lá na França, e gravata refere-se a uma tira de pano que usavam os croatas (hrvatas) para identificarem-se durante certa guerra maltrapilha de séculos passados.
Escuto Ricardinho convocado... a coerência...
Tornando ao terno enquanto seriedade, porém, é impossível deixar de pensar em uma série de outros exemplos, tais como os capelos, as perucas judiciais, a barbicha de rabinos, hábitos, fardões e demais trajes para cerimônias em geral, além daquele sobretudo dos gângsteres. E óculos enquanto sinal de inteligência, claro, problema sério de visão.
quinta-feira, 30 de maio de 2002
Chamado ao Grande Buda Cósmico
Desde os anais das civilizações, houve explicações para o surgimento do universo, do homem, para as estações do ano. Ordenaram as causas e os efeitos conforme suas possíveis experiências sensoriais do espaço e do tempo em que se encontravam.
Essa abstração, capacidade comparativa de se perceber semelhanças e diferenças em diversos fatos, crucial na preservação da nossa raça, foi devido ao Buda Cósmico.
É permitida a previsão do futuro - ao ver raios e trovões sabe-se que haverá chuva. Contudo, isso é condicionamento, um cachorro ao ver uma coleira associa a passeio, e prevê o futuro. A diferença básica entre um e outro é que o homem pode estender esse condicionamento para outro ramo completamente diverso, é quando um novo poder aparece a imaginação criativa , e através dela, ele vê os possíveis acontecimentos em um novo nível de realidade.
Dessa busca infernal de nosso dos genes pela sua manutenção, da força inercial da forma, da luta pela sobrevivência do animal, surge aí uma realidade interior que começa a tomar forma. O animal já não pode contê-la, as duas então as maiores amigas e inimigas dançando essa estranha dança.
Assim nós ficamos entre o maravilhoso anjo louco aprisionado a esse animal que não tem dúvidas, que seus impulsos fluem como um rio boiando nas costas de Buda Cósmico.
A forma de explicar o mecanismo da realidade sensorial através de formas ultra-sensoriais ou abstratas é o mito. Não peço, nem espero, que dêem créditos a Buda Cósmico, pois essa realidade não é para qualquer um. Só Buda Cósmico pode suportá-la.
Buda Cósmico declarou recentemente que nós somos pessoas muito boas, e que estamos sempre certos, independente do contesto. Buda Cósmico, já oculto na obra de Nietzsche, matou aos demais deuses de rir ao expor suas idéias, em especial a de que seria o único verdadeiro Deus. Céu e inferno acabaram, o bem e o mal foram embora juntos.
Buda Cósmico prega o amor livre independentes de barreiras morais. Haverá ter leis pró algum , e um rato às terras férteis e fartas às margens, o rio; o desenvolvimento da raça humana é uma característica nos diferencia dos outros animais.
O Guru
Em meados da década de cinqüenta, ao sul da França na pequena cidade de Chartres, uma das maiores personalidades de nosso século nasceu. Com a alma elegante e chique, o Guru do Buda cósmico sonha acordado. Vivendo no limiar da loucura à beira do precipício. Na atualidade já conta com muitos adeptos na França, em seu território localizado numa floresta.
No Brasil seguidores perceberam o intra-realístico em meio a idéias desconexas ao senso de abstração incutido nos atuais cérebros.
A Queda
No início havia o chuchu, ou melhor, era o chuchu. Mas ele sucumbiu, caiu, para todos os lados. Deus então gritou: Gerônimo! - e criou a humanidade para justificar seu berro de espontaneidade.
Caindo sem causas, ressentimentos, independente de barreiras morais, caiu simplesmente por cair, este é o fato, terrivelmente horrendo e assustador para almas onde há um pingo de vida. Caindo para todos os lados, o CHUCHU deixou de ser...Buda Cósmico, olhando para suas privadas mãos, chorou...por séculos, mas vendo nada adiantar, pôs-se a cantar e a dançar. Buda Cósmico chora muito, mas também canta e dança - se palmas batesse, seria a imagem de uma foca, elas abstrairiam; porém, Buda, forte, não bate palmas...
E quanto aos homens, como enfrentar essa monstruosa realidade intrínseca à Grande Queda? Atribuir ao próprio chuchu a Grande Queda ? Seria desumano - qualquer intelecto mortal ou imortal jamais suportaria. Não podendo carregar esse fardo nas costas, o homem se droga: a da culpa, da causa e do efeito do papai celestial. Os antigos projetaram a culpa no diabo, uma fantasia muito presente dentro do homem...
Assim, por milênios, a humanidade se salvou. Se por toda história, o conhecimento evoluiu, foi por causa da Grande Queda e o medo de tal revelação. Mas, de tanto fugir da queda do Chuchu , na metade milênio I, os desenhos numéricos vieram como parteiros. Forçando o imaginário a abandonar a proteção do útero de deuses e diabos decadentes. Newton, diante de um novo contexto, jogou a culpa para ela a: Força. Iluministas e renascentistas colocaram, então, nela a culpa. Dessa forma estava suprimido o terrível fato. Nunca haverá um tempo em que a realidade do Chuchu será suportada por uma criatura enquanto dualidade.
O Buda Cósmico
Buda cósmico reveste a Terra nos protegendo dos ataques de meteoros dos alienígenas de Plutão, planeta frio e distante, e Saturno, através de setas de amor. E não pede nada em troca.
Grande e bitelo, Buda Cósmico é o mais chique. Pense no que há de mais chique, que Buda Cósmico o porá no chinelo, com a vantagem de ser, também, muito elegante - é fundamental notar a diferença. A realidade é chique, mas aos olhos humanos, sob efeito do Coala-Peixe-Pássaro-Mutante - que, com sua língua maldita, murmura aos ouvidos e nos faz errar, com o beneplácito de Lord Censor, esses sim, grandes inimigos do Buda Cósmico -, não se consegue perceber tal chiqueza. Toda forma de evolução caminha para o chique.
"Oh, Buda Cósmico / Acalentai minh’alma ávida de elegância "
Prolegomena - Delírios do Buda Cósmico
"Espalhando ao mundo na forma de idéias congeladas, a revelação potencial / Não espera, nem pede créditos, sendo a crença olhos que não vêem. / No horror da liberdade está o sublime."
"Preso está o homem em seu casco / Graças a Deus não percebe que está preso / ...E lá fora Belzebu faz a festa."
"Não estás vivos, pensas que estás vivo. Não há causas, nem efeitos. Não há espaço, não há tempo: há o Intervalo. Não acredite, nem deixe de acreditar, crer não existe. Não há caminho nem temos onde chegar. Não há perdão, há fatos. Não há bem, não há mal, há a diferença. Não há sujeito, não há objeto; Só o verbo e seu adjunto. E também tudo isso não deixa de haver."
"Tu és a criatura que não consegue olhar diretamente para nuca. Isto é o que te diferencia do resto do Universo, tanto de uma pedra tanto de uma Galáxia."
"A fé se esconde atrás do olho."
"Ame tudo, amará você; odeie tudo, odiará você. Ser é reagir, transformação, reencarnação de nós em nos mesmos. Nós somos os olhos da parte que é o todo; a visão não vê bordas. Todo homem possui uma doença mental; chama-se Realidade! Querer fazer e não poder é o que nos faz ser muitos, e sendo muitos percebemos o que é o Um."
"Ou tudo, Ou não."
Essa abstração, capacidade comparativa de se perceber semelhanças e diferenças em diversos fatos, crucial na preservação da nossa raça, foi devido ao Buda Cósmico.
É permitida a previsão do futuro - ao ver raios e trovões sabe-se que haverá chuva. Contudo, isso é condicionamento, um cachorro ao ver uma coleira associa a passeio, e prevê o futuro. A diferença básica entre um e outro é que o homem pode estender esse condicionamento para outro ramo completamente diverso, é quando um novo poder aparece a imaginação criativa , e através dela, ele vê os possíveis acontecimentos em um novo nível de realidade.
Dessa busca infernal de nosso dos genes pela sua manutenção, da força inercial da forma, da luta pela sobrevivência do animal, surge aí uma realidade interior que começa a tomar forma. O animal já não pode contê-la, as duas então as maiores amigas e inimigas dançando essa estranha dança.
Assim nós ficamos entre o maravilhoso anjo louco aprisionado a esse animal que não tem dúvidas, que seus impulsos fluem como um rio boiando nas costas de Buda Cósmico.
A forma de explicar o mecanismo da realidade sensorial através de formas ultra-sensoriais ou abstratas é o mito. Não peço, nem espero, que dêem créditos a Buda Cósmico, pois essa realidade não é para qualquer um. Só Buda Cósmico pode suportá-la.
Buda Cósmico declarou recentemente que nós somos pessoas muito boas, e que estamos sempre certos, independente do contesto. Buda Cósmico, já oculto na obra de Nietzsche, matou aos demais deuses de rir ao expor suas idéias, em especial a de que seria o único verdadeiro Deus. Céu e inferno acabaram, o bem e o mal foram embora juntos.
Buda Cósmico prega o amor livre independentes de barreiras morais. Haverá ter leis pró algum , e um rato às terras férteis e fartas às margens, o rio; o desenvolvimento da raça humana é uma característica nos diferencia dos outros animais.
O Guru
Em meados da década de cinqüenta, ao sul da França na pequena cidade de Chartres, uma das maiores personalidades de nosso século nasceu. Com a alma elegante e chique, o Guru do Buda cósmico sonha acordado. Vivendo no limiar da loucura à beira do precipício. Na atualidade já conta com muitos adeptos na França, em seu território localizado numa floresta.
No Brasil seguidores perceberam o intra-realístico em meio a idéias desconexas ao senso de abstração incutido nos atuais cérebros.
A Queda
No início havia o chuchu, ou melhor, era o chuchu. Mas ele sucumbiu, caiu, para todos os lados. Deus então gritou: Gerônimo! - e criou a humanidade para justificar seu berro de espontaneidade.
Caindo sem causas, ressentimentos, independente de barreiras morais, caiu simplesmente por cair, este é o fato, terrivelmente horrendo e assustador para almas onde há um pingo de vida. Caindo para todos os lados, o CHUCHU deixou de ser...Buda Cósmico, olhando para suas privadas mãos, chorou...por séculos, mas vendo nada adiantar, pôs-se a cantar e a dançar. Buda Cósmico chora muito, mas também canta e dança - se palmas batesse, seria a imagem de uma foca, elas abstrairiam; porém, Buda, forte, não bate palmas...
E quanto aos homens, como enfrentar essa monstruosa realidade intrínseca à Grande Queda? Atribuir ao próprio chuchu a Grande Queda ? Seria desumano - qualquer intelecto mortal ou imortal jamais suportaria. Não podendo carregar esse fardo nas costas, o homem se droga: a da culpa, da causa e do efeito do papai celestial. Os antigos projetaram a culpa no diabo, uma fantasia muito presente dentro do homem...
Assim, por milênios, a humanidade se salvou. Se por toda história, o conhecimento evoluiu, foi por causa da Grande Queda e o medo de tal revelação. Mas, de tanto fugir da queda do Chuchu , na metade milênio I, os desenhos numéricos vieram como parteiros. Forçando o imaginário a abandonar a proteção do útero de deuses e diabos decadentes. Newton, diante de um novo contexto, jogou a culpa para ela a: Força. Iluministas e renascentistas colocaram, então, nela a culpa. Dessa forma estava suprimido o terrível fato. Nunca haverá um tempo em que a realidade do Chuchu será suportada por uma criatura enquanto dualidade.
O Buda Cósmico
Buda cósmico reveste a Terra nos protegendo dos ataques de meteoros dos alienígenas de Plutão, planeta frio e distante, e Saturno, através de setas de amor. E não pede nada em troca.
Grande e bitelo, Buda Cósmico é o mais chique. Pense no que há de mais chique, que Buda Cósmico o porá no chinelo, com a vantagem de ser, também, muito elegante - é fundamental notar a diferença. A realidade é chique, mas aos olhos humanos, sob efeito do Coala-Peixe-Pássaro-Mutante - que, com sua língua maldita, murmura aos ouvidos e nos faz errar, com o beneplácito de Lord Censor, esses sim, grandes inimigos do Buda Cósmico -, não se consegue perceber tal chiqueza. Toda forma de evolução caminha para o chique.
"Oh, Buda Cósmico / Acalentai minh’alma ávida de elegância "
Prolegomena - Delírios do Buda Cósmico
"Espalhando ao mundo na forma de idéias congeladas, a revelação potencial / Não espera, nem pede créditos, sendo a crença olhos que não vêem. / No horror da liberdade está o sublime."
"Preso está o homem em seu casco / Graças a Deus não percebe que está preso / ...E lá fora Belzebu faz a festa."
"Não estás vivos, pensas que estás vivo. Não há causas, nem efeitos. Não há espaço, não há tempo: há o Intervalo. Não acredite, nem deixe de acreditar, crer não existe. Não há caminho nem temos onde chegar. Não há perdão, há fatos. Não há bem, não há mal, há a diferença. Não há sujeito, não há objeto; Só o verbo e seu adjunto. E também tudo isso não deixa de haver."
"Tu és a criatura que não consegue olhar diretamente para nuca. Isto é o que te diferencia do resto do Universo, tanto de uma pedra tanto de uma Galáxia."
"A fé se esconde atrás do olho."
"Ame tudo, amará você; odeie tudo, odiará você. Ser é reagir, transformação, reencarnação de nós em nos mesmos. Nós somos os olhos da parte que é o todo; a visão não vê bordas. Todo homem possui uma doença mental; chama-se Realidade! Querer fazer e não poder é o que nos faz ser muitos, e sendo muitos percebemos o que é o Um."
"Ou tudo, Ou não."
domingo, 26 de maio de 2002
Estatística & Trabalho
O que é Estatística? "É o estudo quantitativo de certos fenômenos sociais, destinados à informação dos homens de Estado"; ou pelo menos foi assim que primeiro a definiram, em fins do século XVIII. E, desde então, tem até mesmo prestado tal papel.
Por que fazíamos Edudação Física na escola? Um dos primeiros trabalhos da estatística foi correlacionar doenças e exercícios físicos... e decretaram que teríamos de fazer aquela merda -- os governantes sentiam-se ainda um pouco responsáveis pela saúde da população.
Não se pode negar, também, que a posterior redução das jornadas de trabalho tem um quê de redução com gastos com a saúde -- apesar das dificuldades impostas pela burguesia em geral, além dos donos de sesmarias, que são quem sustenta o governo de um jeito ou de outro...
Aliás, o que mais mata no mundo? Por muitos anos pensei ser a burrice, mas não é, e sim o trabalho (é sério: QI entrava como um dos dados para ser relacionado com o QL -- quociente de longevidade da população --; e a mera questão de estar ou não satisfeito no trabalho era muito mais representativa que a felicidade geral do sujeito...)
A análise dos efeitos químicos do stress no trabalho é interessante -- aumentos como os de 40% na adrenalina. E o stress é tanto maior quanto menor for o controle que o sujeito tem dos meios de produção, quanto mais bitolado o operário for -- adoráveis os estudos nas linhas-de-montagem de Detroit, o stress prolongado causando aumento de 300% no risco de doença coronariana, lindo...
Receber por hora ou por produção também aumenta absurdamente o nível de stress da rapaziada -- e essa "hora-extra" é uma armadilha tanto capitalista quanto daqueles comunas chineses...
E ainda há quem defenda que só o trabalho liberta.
Por que fazíamos Edudação Física na escola? Um dos primeiros trabalhos da estatística foi correlacionar doenças e exercícios físicos... e decretaram que teríamos de fazer aquela merda -- os governantes sentiam-se ainda um pouco responsáveis pela saúde da população.
Não se pode negar, também, que a posterior redução das jornadas de trabalho tem um quê de redução com gastos com a saúde -- apesar das dificuldades impostas pela burguesia em geral, além dos donos de sesmarias, que são quem sustenta o governo de um jeito ou de outro...
Aliás, o que mais mata no mundo? Por muitos anos pensei ser a burrice, mas não é, e sim o trabalho (é sério: QI entrava como um dos dados para ser relacionado com o QL -- quociente de longevidade da população --; e a mera questão de estar ou não satisfeito no trabalho era muito mais representativa que a felicidade geral do sujeito...)
A análise dos efeitos químicos do stress no trabalho é interessante -- aumentos como os de 40% na adrenalina. E o stress é tanto maior quanto menor for o controle que o sujeito tem dos meios de produção, quanto mais bitolado o operário for -- adoráveis os estudos nas linhas-de-montagem de Detroit, o stress prolongado causando aumento de 300% no risco de doença coronariana, lindo...
Receber por hora ou por produção também aumenta absurdamente o nível de stress da rapaziada -- e essa "hora-extra" é uma armadilha tanto capitalista quanto daqueles comunas chineses...
E ainda há quem defenda que só o trabalho liberta.
sexta-feira, 17 de maio de 2002
Noites Niteroienses
E porque era sexta, e nada melhor ou pior havia, pus minha velha camisa breves tempos (dois dias? dois meses?) em que pertencera à Medicina-USP -- camiseta bem medicina mesmo, daquelas com letras garrafais e em cores berrantes, extremamente chamativas, que os discípulos de Hipócrates, pedra fundamental do mercado de auto-ajuda, pensam que tirar nota boa numa prova primária é sinal de inteligência, e precisam ostentar --, e aceitei o convite de um amigo para ir à chopada da medicina da UFF.
Que comentar? Talvez fosse mais edificante e interessante ter ido a uma reunião de numismatas, gagos ou ventríloquos. Música horrível, até um jogral de papagaios seria mais suportável, ornejos por toda parte, pouca cerveja, homem demais, gente chata, “fútil, quotidiana, tributável” e metida a besta, com cara de que está se divertindo, enfim: uma porcaria completa sob toda aquela fumaça desprovida de graça ou sentido.
Antes das onze, a rebarba da cerveja estava quente, deixamos a massa pra trás e tocamos pro bar do Cerol que era mais negócio -- muito embora tenha precisado pagar o táxi, pois meu amigo só tinha vale-transporte. Fiquei com seus vales, fazer o quê?, mas tendo certeza da premeditação -- o sujeito não anda de ônibus... Lá chegando, a mesma coisa de sempre pelo menos, e meu dinheiro esvaindo-se liquidamente. Talvez por isso tenha decidido ir pra casa mais cedo -- "pra pegar o treino de Fórmula 1", então de madrugada.
Rumei para o ponto como quem marcha ao cadafalso, o fim da noite chegara, aquela merda, sem dinheiro, um bode... Felizmente, porém, o verdinho chegou rápido; fiz sinal, subi e nem precisei pular a catraca -- costume das horas tardas, quando nos unimos contra as grandes corporações e economizamos deixando um trocado pro frango ou café da dupla --, pois estava pleno dos malditos vales, a segunda moeda nacional.
Tive sorte, o último da noite, com alguma gente, mas ainda arrumei um lugar para sentar-me próximo ao motorista -- quando pequeno, minha mãe dizia pra eu ir perto do motorista; não consigo ir em outra parte do bólide sem me sentir em risco iminente.
O motorista ia conversando com o trocador aos berros, pois amortecimento não era um dos predicados do veículo, e já estávamos no Caio Martins -- sacro palco dos jogos do glorioso (atualmente, está sem energia por falta de pagamento) --, quando um sujeito na cadeirinha pra aleijados puxou a corda.
Parecia meio bêbado, a maneira estabanada como se levantou, saiu do ônibus às pressas. Mal saiu, aliás, o ônibus ia dando partida e o sujeito atravessou na frente.
Foi um milagre não o termos alvejado, escapou por centésimos, devido à brecada do motorista, e tudo pra ser atirado aos ares por um Gol velho, em alta velocidade, que a Mercedes tirara de seu campo áudio-visual (mas quem imaginaria que poderia estar passando um carro por trás do ônibus? Deus é realmente justo, e verdadeiro.)
A frenagem desesperada do automóvel, um barulho seco e o sujeito voando. Foi lindo -- na verdade, não foi nem um pouco bonito, mas foi a expressão que me veio --; vi-o de camarote, e agora o pessoal esticava o pescoço, alvoroçado, a fim de saber o que ocorrera. Burburinho; o motorista se virou pra gritar ao cobrador: ... mas não gritou. Olhou pra minha discreta camisa e soltou uma frase que jamais me esquecerei enquanto ainda restar um pingo de inteligência e remorso em meu espírito: "você faz medicina?". Foi horrível. E logo eu, que detesto perguntas diretas, nunca consigo respondê-las -- não que goste de mentir, é incontrolável, simplesmente detesto responder a perguntas secas, sou insubordinado por natureza --, e foi por isso que, num ato-reflexo, minha boca proferiu o infeliz "Posso dar uma olhada; mas eu só tenho treinamento básico".
Poderia dizer que demorou muito, e que minha vida passava pela minha mente ou olhos, mas, enquanto as pessoas derredor digitavam furiosamente seus celulares, em busca de bombeiros, hospitais ou o que fosse, só deu tempo de xingar-me algumas vezes por colocar-me, gratuitamente, em tal situação, culpar alguns amigos canalhas e torcer para que, oximoramente, o sujeito estivesse ou bem, ou bem morto.
A primeira coisa que vi, ou de que me recordo, foi o pescoço todo ensanguentado. 'Imbecil filho-de-puta miserável por que você está fazendo isso comigo?' Havia vida no corpo, posso afirmar. E por sorte havia muita. O sangue que vira se originara de um corte superficial (quero crer) na cabeça ("dura-máter", balbuciei em algo pouco maior que um sussurro, sem absolutamente nenhuma convicção, mas querendo infundir um mínimo de respeito, para não ser pego como mentiroso e irresponsável -- se é pra fazer a merda, façamo-la completa), o sujeito havia passado a mão ali e depois esfregara no pescoço.
Olhava-nos arregaladamente o acidentado, mas, ao contrário do motorista do Gol, com surpreendente calma -- talvez estivesse em estado de choque, algo que nunca compreendi muito bem. O fato é que lá estava eu, e, sem saber muito o que fazer, dispondo apenas do vasto conhecimento congênito que possuo, num gesto patético, ergui três dedos, para ver se ele os acompanhava, e perguntei quantos eram.
Acertou. Alívio. Minha pergunta seguinte foi por seu nome e onde morava; disse que estava indo para um endereço ali perto. A esta altura, é claro, todos já estavam em volta, e dois senhores dispuseram-se a ir até o local citado. Parecia que a coisa terminaria bem; disse para que ficasse como estava, deitado -- eu que não me responsabilizaria por uma tetraplegia; sou doido mas não sou burro, já me bastariam os anos por exercício ilegal da medicina, falsidade ideológica e aparentados --, o motorista do Gol já estava mais preocupado com estado do carro que com o coitado, quando uma voz feminina -- mas nada feminina; na verdade, velha, suja, pobre e morbidamente gorda -- irrompeu
ELE TÁ PERDENDO SANGUE. TÁ PERDENDO SANGUE. ELE VAI MOOORRERRR.
Puta-que-pariu, sussurrei, e numa tranqüilidade irritada e controlada, típica de quem está com medo, disse "Calma, minha senhora, nem toda nuvem tempestades engendra"
SE FOSSE MEU FILHO
Felizmente, um sujeito grande pôs a mulher em seu lugar, i.e.: no ônibus, dizendo para que não olhasse ou passaria mal, que o rapaz estava bem
ELE VAI MOOORRERRR.
Comecei a ficar mais nervoso e irrequieto; 'Por que os anjos do asfalto estão demorando?, há um hospital a menos de seis quadras daqui', e todos em volta sem saber o que fazer, olhando pro sujeito ali estirado, com um bafo de cana que só eu sei, e, de repente, salvo pela sereia mágica. Ao fundo a escutava, os paramédicos chegavam para me socorrer, fiquei extático contemplando aquela visão beatífica de uma ambulância. Respondi vagamente ao que me perguntavam, "concussão", "perdeu algum sangue", "sem muitas dores corporais", "não fiz nada, só..."
E, antes que me desse conta, já estava retornando ao ônibus, infinitamente grato por não ter sido levado para o hospital acompanhar meu paciente, ou, tampouco, para um inquérito. Seus conhecidos chegavam rapidamente, e com o retorno dos passageiros que haviam se deslocado, seguimos para nossos destinos, não tão confiantes na vida assim, mas buscando algo em que nos apoiarmos, como a estupidez e imprudência do culpado.
Apertei o botão sinalizando que chegara a meu ponto e desci triunfalmente, desejando uma boa noite ao motorista. Adentrei o prédio, o elevador esperava-me, 'Eu mereço', e com ébrias dificuldades abri a porta da cozinha, já pensando em que salgados fritar para sublimar a indefessável larica, quando minha irmã anunciou: "Acabou o treino; tá chovendo, Rubinho foi pole."
"Merda". Aquele dia, o azarado fora eu, mas não tinha do que reclamar; não tinha do que reclamar, até porque possuía em mim a certeza de que salvara uma vida, a minha, e que, no dia seguinte, o Schumi, como o Rubinho, não me faltariam, e foi o que aconteceu...
Que comentar? Talvez fosse mais edificante e interessante ter ido a uma reunião de numismatas, gagos ou ventríloquos. Música horrível, até um jogral de papagaios seria mais suportável, ornejos por toda parte, pouca cerveja, homem demais, gente chata, “fútil, quotidiana, tributável” e metida a besta, com cara de que está se divertindo, enfim: uma porcaria completa sob toda aquela fumaça desprovida de graça ou sentido.
Antes das onze, a rebarba da cerveja estava quente, deixamos a massa pra trás e tocamos pro bar do Cerol que era mais negócio -- muito embora tenha precisado pagar o táxi, pois meu amigo só tinha vale-transporte. Fiquei com seus vales, fazer o quê?, mas tendo certeza da premeditação -- o sujeito não anda de ônibus... Lá chegando, a mesma coisa de sempre pelo menos, e meu dinheiro esvaindo-se liquidamente. Talvez por isso tenha decidido ir pra casa mais cedo -- "pra pegar o treino de Fórmula 1", então de madrugada.
Rumei para o ponto como quem marcha ao cadafalso, o fim da noite chegara, aquela merda, sem dinheiro, um bode... Felizmente, porém, o verdinho chegou rápido; fiz sinal, subi e nem precisei pular a catraca -- costume das horas tardas, quando nos unimos contra as grandes corporações e economizamos deixando um trocado pro frango ou café da dupla --, pois estava pleno dos malditos vales, a segunda moeda nacional.
Tive sorte, o último da noite, com alguma gente, mas ainda arrumei um lugar para sentar-me próximo ao motorista -- quando pequeno, minha mãe dizia pra eu ir perto do motorista; não consigo ir em outra parte do bólide sem me sentir em risco iminente.
O motorista ia conversando com o trocador aos berros, pois amortecimento não era um dos predicados do veículo, e já estávamos no Caio Martins -- sacro palco dos jogos do glorioso (atualmente, está sem energia por falta de pagamento) --, quando um sujeito na cadeirinha pra aleijados puxou a corda.
Parecia meio bêbado, a maneira estabanada como se levantou, saiu do ônibus às pressas. Mal saiu, aliás, o ônibus ia dando partida e o sujeito atravessou na frente.
Foi um milagre não o termos alvejado, escapou por centésimos, devido à brecada do motorista, e tudo pra ser atirado aos ares por um Gol velho, em alta velocidade, que a Mercedes tirara de seu campo áudio-visual (mas quem imaginaria que poderia estar passando um carro por trás do ônibus? Deus é realmente justo, e verdadeiro.)
A frenagem desesperada do automóvel, um barulho seco e o sujeito voando. Foi lindo -- na verdade, não foi nem um pouco bonito, mas foi a expressão que me veio --; vi-o de camarote, e agora o pessoal esticava o pescoço, alvoroçado, a fim de saber o que ocorrera. Burburinho; o motorista se virou pra gritar ao cobrador: ... mas não gritou. Olhou pra minha discreta camisa e soltou uma frase que jamais me esquecerei enquanto ainda restar um pingo de inteligência e remorso em meu espírito: "você faz medicina?". Foi horrível. E logo eu, que detesto perguntas diretas, nunca consigo respondê-las -- não que goste de mentir, é incontrolável, simplesmente detesto responder a perguntas secas, sou insubordinado por natureza --, e foi por isso que, num ato-reflexo, minha boca proferiu o infeliz "Posso dar uma olhada; mas eu só tenho treinamento básico".
Poderia dizer que demorou muito, e que minha vida passava pela minha mente ou olhos, mas, enquanto as pessoas derredor digitavam furiosamente seus celulares, em busca de bombeiros, hospitais ou o que fosse, só deu tempo de xingar-me algumas vezes por colocar-me, gratuitamente, em tal situação, culpar alguns amigos canalhas e torcer para que, oximoramente, o sujeito estivesse ou bem, ou bem morto.
A primeira coisa que vi, ou de que me recordo, foi o pescoço todo ensanguentado. 'Imbecil filho-de-puta miserável por que você está fazendo isso comigo?' Havia vida no corpo, posso afirmar. E por sorte havia muita. O sangue que vira se originara de um corte superficial (quero crer) na cabeça ("dura-máter", balbuciei em algo pouco maior que um sussurro, sem absolutamente nenhuma convicção, mas querendo infundir um mínimo de respeito, para não ser pego como mentiroso e irresponsável -- se é pra fazer a merda, façamo-la completa), o sujeito havia passado a mão ali e depois esfregara no pescoço.
Olhava-nos arregaladamente o acidentado, mas, ao contrário do motorista do Gol, com surpreendente calma -- talvez estivesse em estado de choque, algo que nunca compreendi muito bem. O fato é que lá estava eu, e, sem saber muito o que fazer, dispondo apenas do vasto conhecimento congênito que possuo, num gesto patético, ergui três dedos, para ver se ele os acompanhava, e perguntei quantos eram.
Acertou. Alívio. Minha pergunta seguinte foi por seu nome e onde morava; disse que estava indo para um endereço ali perto. A esta altura, é claro, todos já estavam em volta, e dois senhores dispuseram-se a ir até o local citado. Parecia que a coisa terminaria bem; disse para que ficasse como estava, deitado -- eu que não me responsabilizaria por uma tetraplegia; sou doido mas não sou burro, já me bastariam os anos por exercício ilegal da medicina, falsidade ideológica e aparentados --, o motorista do Gol já estava mais preocupado com estado do carro que com o coitado, quando uma voz feminina -- mas nada feminina; na verdade, velha, suja, pobre e morbidamente gorda -- irrompeu
ELE TÁ PERDENDO SANGUE. TÁ PERDENDO SANGUE. ELE VAI MOOORRERRR.
Puta-que-pariu, sussurrei, e numa tranqüilidade irritada e controlada, típica de quem está com medo, disse "Calma, minha senhora, nem toda nuvem tempestades engendra"
SE FOSSE MEU FILHO
Felizmente, um sujeito grande pôs a mulher em seu lugar, i.e.: no ônibus, dizendo para que não olhasse ou passaria mal, que o rapaz estava bem
ELE VAI MOOORRERRR.
Comecei a ficar mais nervoso e irrequieto; 'Por que os anjos do asfalto estão demorando?, há um hospital a menos de seis quadras daqui', e todos em volta sem saber o que fazer, olhando pro sujeito ali estirado, com um bafo de cana que só eu sei, e, de repente, salvo pela sereia mágica. Ao fundo a escutava, os paramédicos chegavam para me socorrer, fiquei extático contemplando aquela visão beatífica de uma ambulância. Respondi vagamente ao que me perguntavam, "concussão", "perdeu algum sangue", "sem muitas dores corporais", "não fiz nada, só..."
E, antes que me desse conta, já estava retornando ao ônibus, infinitamente grato por não ter sido levado para o hospital acompanhar meu paciente, ou, tampouco, para um inquérito. Seus conhecidos chegavam rapidamente, e com o retorno dos passageiros que haviam se deslocado, seguimos para nossos destinos, não tão confiantes na vida assim, mas buscando algo em que nos apoiarmos, como a estupidez e imprudência do culpado.
Apertei o botão sinalizando que chegara a meu ponto e desci triunfalmente, desejando uma boa noite ao motorista. Adentrei o prédio, o elevador esperava-me, 'Eu mereço', e com ébrias dificuldades abri a porta da cozinha, já pensando em que salgados fritar para sublimar a indefessável larica, quando minha irmã anunciou: "Acabou o treino; tá chovendo, Rubinho foi pole."
"Merda". Aquele dia, o azarado fora eu, mas não tinha do que reclamar; não tinha do que reclamar, até porque possuía em mim a certeza de que salvara uma vida, a minha, e que, no dia seguinte, o Schumi, como o Rubinho, não me faltariam, e foi o que aconteceu...
quinta-feira, 16 de maio de 2002
Nosso Amigo, o Átomo
É surpreendente o poder de convencimento dos experimentos, de ver com olhos que Perpétua há de comer; foi impossível não me recordar disso enquanto reassistia a 2001, no instante em que o homem na lua, qual o antropóide milhões de anos antes, tocava o monolito com sua mão.
Houve uma experiência que gostaria de poder ter realizado, pelo poder de persuasão, convencimento, que possui: isolar um átomo, tornando-o visível a olho nu.
Foi realizada* em meados da década de oitenta, pelo grupo de Hans Dehmelt, que ganhou o Nobel, até em razão do método criado ser útil, tendo permitido a medição do fator g-2 do elétron*.
(*) lê-se "gê menos dois"; em linhas gerais, digamos que o 2 seria o fator g (momento magnético) do elétron caso não possuísse raio e que mediu-se algo um pouco superior a isso -- há, na verdade, umas correções que não vêm ao caso --; experimentos similares posteriores, do mesmo Dehmelt, indicaram que talvez o elétron pudesse ter subestrutura, tal como os prótons e nêutron, que são formados a partir de quarks.
O átomo em questão foi um íon de berílio, e passou uns bons meses visível; o mais interessante é que também podiam ser notados os "saltos quânticos", pois alterava de cor (incluso o infravermelho) dependendo de sua energia, e isso ocorria em graus discretos.
Quando cansou, isolaram uma anti-partícula, um pósitron, e ainda batizaram de Priscilla... hoje já isolaram até anti-próton... aí fica difícil pros céticos duvidarmos, por mais que batalhemos na compreensão dos sistemas ligados...
Das experiências mais finas e curiosas, estranho não seja muito conhecida. Por outro lado, não tenho de escutar por aí um Yo no crejo en los átomos, pero que los hay, hay.
Houve uma experiência que gostaria de poder ter realizado, pelo poder de persuasão, convencimento, que possui: isolar um átomo, tornando-o visível a olho nu.
Foi realizada* em meados da década de oitenta, pelo grupo de Hans Dehmelt, que ganhou o Nobel, até em razão do método criado ser útil, tendo permitido a medição do fator g-2 do elétron*.
(*) lê-se "gê menos dois"; em linhas gerais, digamos que o 2 seria o fator g (momento magnético) do elétron caso não possuísse raio e que mediu-se algo um pouco superior a isso -- há, na verdade, umas correções que não vêm ao caso --; experimentos similares posteriores, do mesmo Dehmelt, indicaram que talvez o elétron pudesse ter subestrutura, tal como os prótons e nêutron, que são formados a partir de quarks.
O átomo em questão foi um íon de berílio, e passou uns bons meses visível; o mais interessante é que também podiam ser notados os "saltos quânticos", pois alterava de cor (incluso o infravermelho) dependendo de sua energia, e isso ocorria em graus discretos.
Quando cansou, isolaram uma anti-partícula, um pósitron, e ainda batizaram de Priscilla... hoje já isolaram até anti-próton... aí fica difícil pros céticos duvidarmos, por mais que batalhemos na compreensão dos sistemas ligados...
Das experiências mais finas e curiosas, estranho não seja muito conhecida. Por outro lado, não tenho de escutar por aí um Yo no crejo en los átomos, pero que los hay, hay.
sábado, 11 de maio de 2002
A Ilha Paradisíaca
Era bela a ilha: um pequeno pedaço de terra cercado de coqueiros por todos os lados, decretando não apenas o isolamento de seus habitantes, mas também a impossibilidade da prática da pesca, de forma que a alimentação era restringida, basicamente, a coco e sua água.
Em virtude de tão desbalanceada dieta, a expectativa de vida era baixa, sendo a população quase toda composta por jovens - em sua maioria deficientes, com mãos, braços ou pernas deformados pelo parentesco.
E, graças à evidente deterioração cerebral, eram todos bastante felizes; mesmo a crosta de sujeira que já não mais descolava da pele não era ruim, pois a protegia de queimaduras - como fazia questão de repetir o chefe da ilha, o mais feliz e orgulhoso de todos, que fora o último vencedor do sazonal teste de força e velocidade, obtendo, destarte, a honra de ser guardião e manejador da pedra de abrir cocos.
Entretanto, de alguma forma, após fortes chuvas, curiosas plantas em forma de chapéu começaram a ornar o monte de fezes acumulado na ponta oeste da elíptica ilha. Passado o susto inicial, que obrigou os nativos a defecarem por quase uma semana na outra ponta da ilhota, e fez dois se atirarem do alto de um coqueiro, a curiosidade, aumentada pela necessidade de “enterrar” os suicidas, em avançado estado de decomposição, no monturo, forçou-os a tomar uma atitude.
O chefe, crendo-se autoridade suprema na ocorrência, resolveu comer um dos "chapéus". Nada sentindo a princípio, e sendo rara a oportunidade de saborear algo diferente, anunciou aos demais que comessem a enorme quantidade que se ali juntara.
Após muita alegria, vômitos por toda parte, além da morte de crianças menores e um bebê. E, como se não bastasse, em meio às alucinações, consentimento geral, o chefe arremessara a pedra do alto de um coqueiro para além-árvores.
Na manhã seguinte, veio a discussão, que, inflamada, rapidamente se tornou briga, e, numa divisão natural, os não-deformados, apesar de em menor número, conseguiram facilmente, fosse no corpo-a-corpo ou à distância - atirando metades vazias de cocos - subjugar os outros, que, por serem traidores, foram canibalizados. Com os ossos à mão, a surpresa: perceberam que alguns serviam bem à função de abrir cocos, o que restabeleceu a harmonia na ilha, e trouxe a confiança de que havia sido tomada a decisão correta.
A partir de então, os cogumelos passaram a ser consumidos com maior parcimônia, e, sempre que nascesse alguém deformado, era imediatamente morto e deglutido. E assim teria sido até o final dos tempos, não fosse a ainda maior redução de diversidade genética ter provocado, em não longo prazo, o fim do nascimento de bebês normais, o que só não tornou a ilha novamente deserta, porque Deus, em sua suprema sabedoria, apagou os vestígios e, de uma costela do último homem vivente, fez, novamente, uma perfeita mulher...
Em virtude de tão desbalanceada dieta, a expectativa de vida era baixa, sendo a população quase toda composta por jovens - em sua maioria deficientes, com mãos, braços ou pernas deformados pelo parentesco.
E, graças à evidente deterioração cerebral, eram todos bastante felizes; mesmo a crosta de sujeira que já não mais descolava da pele não era ruim, pois a protegia de queimaduras - como fazia questão de repetir o chefe da ilha, o mais feliz e orgulhoso de todos, que fora o último vencedor do sazonal teste de força e velocidade, obtendo, destarte, a honra de ser guardião e manejador da pedra de abrir cocos.
Entretanto, de alguma forma, após fortes chuvas, curiosas plantas em forma de chapéu começaram a ornar o monte de fezes acumulado na ponta oeste da elíptica ilha. Passado o susto inicial, que obrigou os nativos a defecarem por quase uma semana na outra ponta da ilhota, e fez dois se atirarem do alto de um coqueiro, a curiosidade, aumentada pela necessidade de “enterrar” os suicidas, em avançado estado de decomposição, no monturo, forçou-os a tomar uma atitude.
O chefe, crendo-se autoridade suprema na ocorrência, resolveu comer um dos "chapéus". Nada sentindo a princípio, e sendo rara a oportunidade de saborear algo diferente, anunciou aos demais que comessem a enorme quantidade que se ali juntara.
Após muita alegria, vômitos por toda parte, além da morte de crianças menores e um bebê. E, como se não bastasse, em meio às alucinações, consentimento geral, o chefe arremessara a pedra do alto de um coqueiro para além-árvores.
Na manhã seguinte, veio a discussão, que, inflamada, rapidamente se tornou briga, e, numa divisão natural, os não-deformados, apesar de em menor número, conseguiram facilmente, fosse no corpo-a-corpo ou à distância - atirando metades vazias de cocos - subjugar os outros, que, por serem traidores, foram canibalizados. Com os ossos à mão, a surpresa: perceberam que alguns serviam bem à função de abrir cocos, o que restabeleceu a harmonia na ilha, e trouxe a confiança de que havia sido tomada a decisão correta.
A partir de então, os cogumelos passaram a ser consumidos com maior parcimônia, e, sempre que nascesse alguém deformado, era imediatamente morto e deglutido. E assim teria sido até o final dos tempos, não fosse a ainda maior redução de diversidade genética ter provocado, em não longo prazo, o fim do nascimento de bebês normais, o que só não tornou a ilha novamente deserta, porque Deus, em sua suprema sabedoria, apagou os vestígios e, de uma costela do último homem vivente, fez, novamente, uma perfeita mulher...
quinta-feira, 9 de maio de 2002
Destino Manifesto
1) Eu redijo um blog e não quero nada, eu digo portanto certas coisas, e sou por princípio contra os blogs, como sou também contra os princípios...
2) Sabe-se pelos jornais que os negros Krou denominam a cauda de uma vaca santa: MOZART. O cubo é a mãe em certa região da Itália: MOZART. Um cavalo de madeira, a ama-de-leite, dupla afirmação em russo e em romeno: MOZART.
3) MOZART NÃO SIGNIFICA NADA
4) A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma, porque a beleza está morta.
5) Como querer ordenar o caos que constitui esta infinita informe variação: o homem? O princípio: "ama teu próximo" é uma hipocrisia. "Conhece-te" é uma utopia, porém mais aceitável porque contém a maldade. Nada de piedade. Após a carnificina, resta-nos a esperança de uma humanidade purificada.
6) ... nasceu Dies Irae de um desejo de independência, de desconfiança na comunidade. Aqueles que nos pertencem conservam sua liberdade. Nós não reconhecemos nenhuma teoria. E não reconheceremos processos; os fatos, pessoas e idéias doravante mencionados dizem respeito a universos paralelos.
2) Sabe-se pelos jornais que os negros Krou denominam a cauda de uma vaca santa: MOZART. O cubo é a mãe em certa região da Itália: MOZART. Um cavalo de madeira, a ama-de-leite, dupla afirmação em russo e em romeno: MOZART.
3) MOZART NÃO SIGNIFICA NADA
4) A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma, porque a beleza está morta.
5) Como querer ordenar o caos que constitui esta infinita informe variação: o homem? O princípio: "ama teu próximo" é uma hipocrisia. "Conhece-te" é uma utopia, porém mais aceitável porque contém a maldade. Nada de piedade. Após a carnificina, resta-nos a esperança de uma humanidade purificada.
6) ... nasceu Dies Irae de um desejo de independência, de desconfiança na comunidade. Aqueles que nos pertencem conservam sua liberdade. Nós não reconhecemos nenhuma teoria. E não reconheceremos processos; os fatos, pessoas e idéias doravante mencionados dizem respeito a universos paralelos.
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