Desde os anais das civilizações, houve explicações para o surgimento do universo, do homem, para as estações do ano. Ordenaram as causas e os efeitos conforme suas possíveis experiências sensoriais do espaço e do tempo em que se encontravam.
Essa abstração, capacidade comparativa de se perceber semelhanças e diferenças em diversos fatos, crucial na preservação da nossa raça, foi devido ao Buda Cósmico.
É permitida a previsão do futuro - ao ver raios e trovões sabe-se que haverá chuva. Contudo, isso é condicionamento, um cachorro ao ver uma coleira associa a passeio, e prevê o futuro. A diferença básica entre um e outro é que o homem pode estender esse condicionamento para outro ramo completamente diverso, é quando um novo poder aparece a imaginação criativa , e através dela, ele vê os possíveis acontecimentos em um novo nível de realidade.
Dessa busca infernal de nosso dos genes pela sua manutenção, da força inercial da forma, da luta pela sobrevivência do animal, surge aí uma realidade interior que começa a tomar forma. O animal já não pode contê-la, as duas então as maiores amigas e inimigas dançando essa estranha dança.
Assim nós ficamos entre o maravilhoso anjo louco aprisionado a esse animal que não tem dúvidas, que seus impulsos fluem como um rio boiando nas costas de Buda Cósmico.
A forma de explicar o mecanismo da realidade sensorial através de formas ultra-sensoriais ou abstratas é o mito. Não peço, nem espero, que dêem créditos a Buda Cósmico, pois essa realidade não é para qualquer um. Só Buda Cósmico pode suportá-la.
Buda Cósmico declarou recentemente que nós somos pessoas muito boas, e que estamos sempre certos, independente do contesto. Buda Cósmico, já oculto na obra de Nietzsche, matou aos demais deuses de rir ao expor suas idéias, em especial a de que seria o único verdadeiro Deus. Céu e inferno acabaram, o bem e o mal foram embora juntos.
Buda Cósmico prega o amor livre independentes de barreiras morais. Haverá ter leis pró algum , e um rato às terras férteis e fartas às margens, o rio; o desenvolvimento da raça humana é uma característica nos diferencia dos outros animais.
O Guru
Em meados da década de cinqüenta, ao sul da França na pequena cidade de Chartres, uma das maiores personalidades de nosso século nasceu. Com a alma elegante e chique, o Guru do Buda cósmico sonha acordado. Vivendo no limiar da loucura à beira do precipício. Na atualidade já conta com muitos adeptos na França, em seu território localizado numa floresta.
No Brasil seguidores perceberam o intra-realístico em meio a idéias desconexas ao senso de abstração incutido nos atuais cérebros.
A Queda
No início havia o chuchu, ou melhor, era o chuchu. Mas ele sucumbiu, caiu, para todos os lados. Deus então gritou: Gerônimo! - e criou a humanidade para justificar seu berro de espontaneidade.
Caindo sem causas, ressentimentos, independente de barreiras morais, caiu simplesmente por cair, este é o fato, terrivelmente horrendo e assustador para almas onde há um pingo de vida. Caindo para todos os lados, o CHUCHU deixou de ser...Buda Cósmico, olhando para suas privadas mãos, chorou...por séculos, mas vendo nada adiantar, pôs-se a cantar e a dançar. Buda Cósmico chora muito, mas também canta e dança - se palmas batesse, seria a imagem de uma foca, elas abstrairiam; porém, Buda, forte, não bate palmas...
E quanto aos homens, como enfrentar essa monstruosa realidade intrínseca à Grande Queda? Atribuir ao próprio chuchu a Grande Queda ? Seria desumano - qualquer intelecto mortal ou imortal jamais suportaria. Não podendo carregar esse fardo nas costas, o homem se droga: a da culpa, da causa e do efeito do papai celestial. Os antigos projetaram a culpa no diabo, uma fantasia muito presente dentro do homem...
Assim, por milênios, a humanidade se salvou. Se por toda história, o conhecimento evoluiu, foi por causa da Grande Queda e o medo de tal revelação. Mas, de tanto fugir da queda do Chuchu , na metade milênio I, os desenhos numéricos vieram como parteiros. Forçando o imaginário a abandonar a proteção do útero de deuses e diabos decadentes. Newton, diante de um novo contexto, jogou a culpa para ela a: Força. Iluministas e renascentistas colocaram, então, nela a culpa. Dessa forma estava suprimido o terrível fato. Nunca haverá um tempo em que a realidade do Chuchu será suportada por uma criatura enquanto dualidade.
O Buda Cósmico
Buda cósmico reveste a Terra nos protegendo dos ataques de meteoros dos alienígenas de Plutão, planeta frio e distante, e Saturno, através de setas de amor. E não pede nada em troca.
Grande e bitelo, Buda Cósmico é o mais chique. Pense no que há de mais chique, que Buda Cósmico o porá no chinelo, com a vantagem de ser, também, muito elegante - é fundamental notar a diferença. A realidade é chique, mas aos olhos humanos, sob efeito do Coala-Peixe-Pássaro-Mutante - que, com sua língua maldita, murmura aos ouvidos e nos faz errar, com o beneplácito de Lord Censor, esses sim, grandes inimigos do Buda Cósmico -, não se consegue perceber tal chiqueza. Toda forma de evolução caminha para o chique.
"Oh, Buda Cósmico / Acalentai minh’alma ávida de elegância "
Prolegomena - Delírios do Buda Cósmico
"Espalhando ao mundo na forma de idéias congeladas, a revelação potencial / Não espera, nem pede créditos, sendo a crença olhos que não vêem. / No horror da liberdade está o sublime."
"Preso está o homem em seu casco / Graças a Deus não percebe que está preso / ...E lá fora Belzebu faz a festa."
"Não estás vivos, pensas que estás vivo. Não há causas, nem efeitos. Não há espaço, não há tempo: há o Intervalo. Não acredite, nem deixe de acreditar, crer não existe. Não há caminho nem temos onde chegar. Não há perdão, há fatos. Não há bem, não há mal, há a diferença. Não há sujeito, não há objeto; Só o verbo e seu adjunto. E também tudo isso não deixa de haver."
"Tu és a criatura que não consegue olhar diretamente para nuca. Isto é o que te diferencia do resto do Universo, tanto de uma pedra tanto de uma Galáxia."
"A fé se esconde atrás do olho."
"Ame tudo, amará você; odeie tudo, odiará você. Ser é reagir, transformação, reencarnação de nós em nos mesmos. Nós somos os olhos da parte que é o todo; a visão não vê bordas. Todo homem possui uma doença mental; chama-se Realidade! Querer fazer e não poder é o que nos faz ser muitos, e sendo muitos percebemos o que é o Um."
"Ou tudo, Ou não."
quinta-feira, 30 de maio de 2002
domingo, 26 de maio de 2002
Estatística & Trabalho
O que é Estatística? "É o estudo quantitativo de certos fenômenos sociais, destinados à informação dos homens de Estado"; ou pelo menos foi assim que primeiro a definiram, em fins do século XVIII. E, desde então, tem até mesmo prestado tal papel.
Por que fazíamos Edudação Física na escola? Um dos primeiros trabalhos da estatística foi correlacionar doenças e exercícios físicos... e decretaram que teríamos de fazer aquela merda -- os governantes sentiam-se ainda um pouco responsáveis pela saúde da população.
Não se pode negar, também, que a posterior redução das jornadas de trabalho tem um quê de redução com gastos com a saúde -- apesar das dificuldades impostas pela burguesia em geral, além dos donos de sesmarias, que são quem sustenta o governo de um jeito ou de outro...
Aliás, o que mais mata no mundo? Por muitos anos pensei ser a burrice, mas não é, e sim o trabalho (é sério: QI entrava como um dos dados para ser relacionado com o QL -- quociente de longevidade da população --; e a mera questão de estar ou não satisfeito no trabalho era muito mais representativa que a felicidade geral do sujeito...)
A análise dos efeitos químicos do stress no trabalho é interessante -- aumentos como os de 40% na adrenalina. E o stress é tanto maior quanto menor for o controle que o sujeito tem dos meios de produção, quanto mais bitolado o operário for -- adoráveis os estudos nas linhas-de-montagem de Detroit, o stress prolongado causando aumento de 300% no risco de doença coronariana, lindo...
Receber por hora ou por produção também aumenta absurdamente o nível de stress da rapaziada -- e essa "hora-extra" é uma armadilha tanto capitalista quanto daqueles comunas chineses...
E ainda há quem defenda que só o trabalho liberta.
Por que fazíamos Edudação Física na escola? Um dos primeiros trabalhos da estatística foi correlacionar doenças e exercícios físicos... e decretaram que teríamos de fazer aquela merda -- os governantes sentiam-se ainda um pouco responsáveis pela saúde da população.
Não se pode negar, também, que a posterior redução das jornadas de trabalho tem um quê de redução com gastos com a saúde -- apesar das dificuldades impostas pela burguesia em geral, além dos donos de sesmarias, que são quem sustenta o governo de um jeito ou de outro...
Aliás, o que mais mata no mundo? Por muitos anos pensei ser a burrice, mas não é, e sim o trabalho (é sério: QI entrava como um dos dados para ser relacionado com o QL -- quociente de longevidade da população --; e a mera questão de estar ou não satisfeito no trabalho era muito mais representativa que a felicidade geral do sujeito...)
A análise dos efeitos químicos do stress no trabalho é interessante -- aumentos como os de 40% na adrenalina. E o stress é tanto maior quanto menor for o controle que o sujeito tem dos meios de produção, quanto mais bitolado o operário for -- adoráveis os estudos nas linhas-de-montagem de Detroit, o stress prolongado causando aumento de 300% no risco de doença coronariana, lindo...
Receber por hora ou por produção também aumenta absurdamente o nível de stress da rapaziada -- e essa "hora-extra" é uma armadilha tanto capitalista quanto daqueles comunas chineses...
E ainda há quem defenda que só o trabalho liberta.
sexta-feira, 17 de maio de 2002
Noites Niteroienses
E porque era sexta, e nada melhor ou pior havia, pus minha velha camisa breves tempos (dois dias? dois meses?) em que pertencera à Medicina-USP -- camiseta bem medicina mesmo, daquelas com letras garrafais e em cores berrantes, extremamente chamativas, que os discípulos de Hipócrates, pedra fundamental do mercado de auto-ajuda, pensam que tirar nota boa numa prova primária é sinal de inteligência, e precisam ostentar --, e aceitei o convite de um amigo para ir à chopada da medicina da UFF.
Que comentar? Talvez fosse mais edificante e interessante ter ido a uma reunião de numismatas, gagos ou ventríloquos. Música horrível, até um jogral de papagaios seria mais suportável, ornejos por toda parte, pouca cerveja, homem demais, gente chata, “fútil, quotidiana, tributável” e metida a besta, com cara de que está se divertindo, enfim: uma porcaria completa sob toda aquela fumaça desprovida de graça ou sentido.
Antes das onze, a rebarba da cerveja estava quente, deixamos a massa pra trás e tocamos pro bar do Cerol que era mais negócio -- muito embora tenha precisado pagar o táxi, pois meu amigo só tinha vale-transporte. Fiquei com seus vales, fazer o quê?, mas tendo certeza da premeditação -- o sujeito não anda de ônibus... Lá chegando, a mesma coisa de sempre pelo menos, e meu dinheiro esvaindo-se liquidamente. Talvez por isso tenha decidido ir pra casa mais cedo -- "pra pegar o treino de Fórmula 1", então de madrugada.
Rumei para o ponto como quem marcha ao cadafalso, o fim da noite chegara, aquela merda, sem dinheiro, um bode... Felizmente, porém, o verdinho chegou rápido; fiz sinal, subi e nem precisei pular a catraca -- costume das horas tardas, quando nos unimos contra as grandes corporações e economizamos deixando um trocado pro frango ou café da dupla --, pois estava pleno dos malditos vales, a segunda moeda nacional.
Tive sorte, o último da noite, com alguma gente, mas ainda arrumei um lugar para sentar-me próximo ao motorista -- quando pequeno, minha mãe dizia pra eu ir perto do motorista; não consigo ir em outra parte do bólide sem me sentir em risco iminente.
O motorista ia conversando com o trocador aos berros, pois amortecimento não era um dos predicados do veículo, e já estávamos no Caio Martins -- sacro palco dos jogos do glorioso (atualmente, está sem energia por falta de pagamento) --, quando um sujeito na cadeirinha pra aleijados puxou a corda.
Parecia meio bêbado, a maneira estabanada como se levantou, saiu do ônibus às pressas. Mal saiu, aliás, o ônibus ia dando partida e o sujeito atravessou na frente.
Foi um milagre não o termos alvejado, escapou por centésimos, devido à brecada do motorista, e tudo pra ser atirado aos ares por um Gol velho, em alta velocidade, que a Mercedes tirara de seu campo áudio-visual (mas quem imaginaria que poderia estar passando um carro por trás do ônibus? Deus é realmente justo, e verdadeiro.)
A frenagem desesperada do automóvel, um barulho seco e o sujeito voando. Foi lindo -- na verdade, não foi nem um pouco bonito, mas foi a expressão que me veio --; vi-o de camarote, e agora o pessoal esticava o pescoço, alvoroçado, a fim de saber o que ocorrera. Burburinho; o motorista se virou pra gritar ao cobrador: ... mas não gritou. Olhou pra minha discreta camisa e soltou uma frase que jamais me esquecerei enquanto ainda restar um pingo de inteligência e remorso em meu espírito: "você faz medicina?". Foi horrível. E logo eu, que detesto perguntas diretas, nunca consigo respondê-las -- não que goste de mentir, é incontrolável, simplesmente detesto responder a perguntas secas, sou insubordinado por natureza --, e foi por isso que, num ato-reflexo, minha boca proferiu o infeliz "Posso dar uma olhada; mas eu só tenho treinamento básico".
Poderia dizer que demorou muito, e que minha vida passava pela minha mente ou olhos, mas, enquanto as pessoas derredor digitavam furiosamente seus celulares, em busca de bombeiros, hospitais ou o que fosse, só deu tempo de xingar-me algumas vezes por colocar-me, gratuitamente, em tal situação, culpar alguns amigos canalhas e torcer para que, oximoramente, o sujeito estivesse ou bem, ou bem morto.
A primeira coisa que vi, ou de que me recordo, foi o pescoço todo ensanguentado. 'Imbecil filho-de-puta miserável por que você está fazendo isso comigo?' Havia vida no corpo, posso afirmar. E por sorte havia muita. O sangue que vira se originara de um corte superficial (quero crer) na cabeça ("dura-máter", balbuciei em algo pouco maior que um sussurro, sem absolutamente nenhuma convicção, mas querendo infundir um mínimo de respeito, para não ser pego como mentiroso e irresponsável -- se é pra fazer a merda, façamo-la completa), o sujeito havia passado a mão ali e depois esfregara no pescoço.
Olhava-nos arregaladamente o acidentado, mas, ao contrário do motorista do Gol, com surpreendente calma -- talvez estivesse em estado de choque, algo que nunca compreendi muito bem. O fato é que lá estava eu, e, sem saber muito o que fazer, dispondo apenas do vasto conhecimento congênito que possuo, num gesto patético, ergui três dedos, para ver se ele os acompanhava, e perguntei quantos eram.
Acertou. Alívio. Minha pergunta seguinte foi por seu nome e onde morava; disse que estava indo para um endereço ali perto. A esta altura, é claro, todos já estavam em volta, e dois senhores dispuseram-se a ir até o local citado. Parecia que a coisa terminaria bem; disse para que ficasse como estava, deitado -- eu que não me responsabilizaria por uma tetraplegia; sou doido mas não sou burro, já me bastariam os anos por exercício ilegal da medicina, falsidade ideológica e aparentados --, o motorista do Gol já estava mais preocupado com estado do carro que com o coitado, quando uma voz feminina -- mas nada feminina; na verdade, velha, suja, pobre e morbidamente gorda -- irrompeu
ELE TÁ PERDENDO SANGUE. TÁ PERDENDO SANGUE. ELE VAI MOOORRERRR.
Puta-que-pariu, sussurrei, e numa tranqüilidade irritada e controlada, típica de quem está com medo, disse "Calma, minha senhora, nem toda nuvem tempestades engendra"
SE FOSSE MEU FILHO
Felizmente, um sujeito grande pôs a mulher em seu lugar, i.e.: no ônibus, dizendo para que não olhasse ou passaria mal, que o rapaz estava bem
ELE VAI MOOORRERRR.
Comecei a ficar mais nervoso e irrequieto; 'Por que os anjos do asfalto estão demorando?, há um hospital a menos de seis quadras daqui', e todos em volta sem saber o que fazer, olhando pro sujeito ali estirado, com um bafo de cana que só eu sei, e, de repente, salvo pela sereia mágica. Ao fundo a escutava, os paramédicos chegavam para me socorrer, fiquei extático contemplando aquela visão beatífica de uma ambulância. Respondi vagamente ao que me perguntavam, "concussão", "perdeu algum sangue", "sem muitas dores corporais", "não fiz nada, só..."
E, antes que me desse conta, já estava retornando ao ônibus, infinitamente grato por não ter sido levado para o hospital acompanhar meu paciente, ou, tampouco, para um inquérito. Seus conhecidos chegavam rapidamente, e com o retorno dos passageiros que haviam se deslocado, seguimos para nossos destinos, não tão confiantes na vida assim, mas buscando algo em que nos apoiarmos, como a estupidez e imprudência do culpado.
Apertei o botão sinalizando que chegara a meu ponto e desci triunfalmente, desejando uma boa noite ao motorista. Adentrei o prédio, o elevador esperava-me, 'Eu mereço', e com ébrias dificuldades abri a porta da cozinha, já pensando em que salgados fritar para sublimar a indefessável larica, quando minha irmã anunciou: "Acabou o treino; tá chovendo, Rubinho foi pole."
"Merda". Aquele dia, o azarado fora eu, mas não tinha do que reclamar; não tinha do que reclamar, até porque possuía em mim a certeza de que salvara uma vida, a minha, e que, no dia seguinte, o Schumi, como o Rubinho, não me faltariam, e foi o que aconteceu...
Que comentar? Talvez fosse mais edificante e interessante ter ido a uma reunião de numismatas, gagos ou ventríloquos. Música horrível, até um jogral de papagaios seria mais suportável, ornejos por toda parte, pouca cerveja, homem demais, gente chata, “fútil, quotidiana, tributável” e metida a besta, com cara de que está se divertindo, enfim: uma porcaria completa sob toda aquela fumaça desprovida de graça ou sentido.
Antes das onze, a rebarba da cerveja estava quente, deixamos a massa pra trás e tocamos pro bar do Cerol que era mais negócio -- muito embora tenha precisado pagar o táxi, pois meu amigo só tinha vale-transporte. Fiquei com seus vales, fazer o quê?, mas tendo certeza da premeditação -- o sujeito não anda de ônibus... Lá chegando, a mesma coisa de sempre pelo menos, e meu dinheiro esvaindo-se liquidamente. Talvez por isso tenha decidido ir pra casa mais cedo -- "pra pegar o treino de Fórmula 1", então de madrugada.
Rumei para o ponto como quem marcha ao cadafalso, o fim da noite chegara, aquela merda, sem dinheiro, um bode... Felizmente, porém, o verdinho chegou rápido; fiz sinal, subi e nem precisei pular a catraca -- costume das horas tardas, quando nos unimos contra as grandes corporações e economizamos deixando um trocado pro frango ou café da dupla --, pois estava pleno dos malditos vales, a segunda moeda nacional.
Tive sorte, o último da noite, com alguma gente, mas ainda arrumei um lugar para sentar-me próximo ao motorista -- quando pequeno, minha mãe dizia pra eu ir perto do motorista; não consigo ir em outra parte do bólide sem me sentir em risco iminente.
O motorista ia conversando com o trocador aos berros, pois amortecimento não era um dos predicados do veículo, e já estávamos no Caio Martins -- sacro palco dos jogos do glorioso (atualmente, está sem energia por falta de pagamento) --, quando um sujeito na cadeirinha pra aleijados puxou a corda.
Parecia meio bêbado, a maneira estabanada como se levantou, saiu do ônibus às pressas. Mal saiu, aliás, o ônibus ia dando partida e o sujeito atravessou na frente.
Foi um milagre não o termos alvejado, escapou por centésimos, devido à brecada do motorista, e tudo pra ser atirado aos ares por um Gol velho, em alta velocidade, que a Mercedes tirara de seu campo áudio-visual (mas quem imaginaria que poderia estar passando um carro por trás do ônibus? Deus é realmente justo, e verdadeiro.)
A frenagem desesperada do automóvel, um barulho seco e o sujeito voando. Foi lindo -- na verdade, não foi nem um pouco bonito, mas foi a expressão que me veio --; vi-o de camarote, e agora o pessoal esticava o pescoço, alvoroçado, a fim de saber o que ocorrera. Burburinho; o motorista se virou pra gritar ao cobrador: ... mas não gritou. Olhou pra minha discreta camisa e soltou uma frase que jamais me esquecerei enquanto ainda restar um pingo de inteligência e remorso em meu espírito: "você faz medicina?". Foi horrível. E logo eu, que detesto perguntas diretas, nunca consigo respondê-las -- não que goste de mentir, é incontrolável, simplesmente detesto responder a perguntas secas, sou insubordinado por natureza --, e foi por isso que, num ato-reflexo, minha boca proferiu o infeliz "Posso dar uma olhada; mas eu só tenho treinamento básico".
Poderia dizer que demorou muito, e que minha vida passava pela minha mente ou olhos, mas, enquanto as pessoas derredor digitavam furiosamente seus celulares, em busca de bombeiros, hospitais ou o que fosse, só deu tempo de xingar-me algumas vezes por colocar-me, gratuitamente, em tal situação, culpar alguns amigos canalhas e torcer para que, oximoramente, o sujeito estivesse ou bem, ou bem morto.
A primeira coisa que vi, ou de que me recordo, foi o pescoço todo ensanguentado. 'Imbecil filho-de-puta miserável por que você está fazendo isso comigo?' Havia vida no corpo, posso afirmar. E por sorte havia muita. O sangue que vira se originara de um corte superficial (quero crer) na cabeça ("dura-máter", balbuciei em algo pouco maior que um sussurro, sem absolutamente nenhuma convicção, mas querendo infundir um mínimo de respeito, para não ser pego como mentiroso e irresponsável -- se é pra fazer a merda, façamo-la completa), o sujeito havia passado a mão ali e depois esfregara no pescoço.
Olhava-nos arregaladamente o acidentado, mas, ao contrário do motorista do Gol, com surpreendente calma -- talvez estivesse em estado de choque, algo que nunca compreendi muito bem. O fato é que lá estava eu, e, sem saber muito o que fazer, dispondo apenas do vasto conhecimento congênito que possuo, num gesto patético, ergui três dedos, para ver se ele os acompanhava, e perguntei quantos eram.
Acertou. Alívio. Minha pergunta seguinte foi por seu nome e onde morava; disse que estava indo para um endereço ali perto. A esta altura, é claro, todos já estavam em volta, e dois senhores dispuseram-se a ir até o local citado. Parecia que a coisa terminaria bem; disse para que ficasse como estava, deitado -- eu que não me responsabilizaria por uma tetraplegia; sou doido mas não sou burro, já me bastariam os anos por exercício ilegal da medicina, falsidade ideológica e aparentados --, o motorista do Gol já estava mais preocupado com estado do carro que com o coitado, quando uma voz feminina -- mas nada feminina; na verdade, velha, suja, pobre e morbidamente gorda -- irrompeu
ELE TÁ PERDENDO SANGUE. TÁ PERDENDO SANGUE. ELE VAI MOOORRERRR.
Puta-que-pariu, sussurrei, e numa tranqüilidade irritada e controlada, típica de quem está com medo, disse "Calma, minha senhora, nem toda nuvem tempestades engendra"
SE FOSSE MEU FILHO
Felizmente, um sujeito grande pôs a mulher em seu lugar, i.e.: no ônibus, dizendo para que não olhasse ou passaria mal, que o rapaz estava bem
ELE VAI MOOORRERRR.
Comecei a ficar mais nervoso e irrequieto; 'Por que os anjos do asfalto estão demorando?, há um hospital a menos de seis quadras daqui', e todos em volta sem saber o que fazer, olhando pro sujeito ali estirado, com um bafo de cana que só eu sei, e, de repente, salvo pela sereia mágica. Ao fundo a escutava, os paramédicos chegavam para me socorrer, fiquei extático contemplando aquela visão beatífica de uma ambulância. Respondi vagamente ao que me perguntavam, "concussão", "perdeu algum sangue", "sem muitas dores corporais", "não fiz nada, só..."
E, antes que me desse conta, já estava retornando ao ônibus, infinitamente grato por não ter sido levado para o hospital acompanhar meu paciente, ou, tampouco, para um inquérito. Seus conhecidos chegavam rapidamente, e com o retorno dos passageiros que haviam se deslocado, seguimos para nossos destinos, não tão confiantes na vida assim, mas buscando algo em que nos apoiarmos, como a estupidez e imprudência do culpado.
Apertei o botão sinalizando que chegara a meu ponto e desci triunfalmente, desejando uma boa noite ao motorista. Adentrei o prédio, o elevador esperava-me, 'Eu mereço', e com ébrias dificuldades abri a porta da cozinha, já pensando em que salgados fritar para sublimar a indefessável larica, quando minha irmã anunciou: "Acabou o treino; tá chovendo, Rubinho foi pole."
"Merda". Aquele dia, o azarado fora eu, mas não tinha do que reclamar; não tinha do que reclamar, até porque possuía em mim a certeza de que salvara uma vida, a minha, e que, no dia seguinte, o Schumi, como o Rubinho, não me faltariam, e foi o que aconteceu...
quinta-feira, 16 de maio de 2002
Nosso Amigo, o Átomo
É surpreendente o poder de convencimento dos experimentos, de ver com olhos que Perpétua há de comer; foi impossível não me recordar disso enquanto reassistia a 2001, no instante em que o homem na lua, qual o antropóide milhões de anos antes, tocava o monolito com sua mão.
Houve uma experiência que gostaria de poder ter realizado, pelo poder de persuasão, convencimento, que possui: isolar um átomo, tornando-o visível a olho nu.
Foi realizada* em meados da década de oitenta, pelo grupo de Hans Dehmelt, que ganhou o Nobel, até em razão do método criado ser útil, tendo permitido a medição do fator g-2 do elétron*.
(*) lê-se "gê menos dois"; em linhas gerais, digamos que o 2 seria o fator g (momento magnético) do elétron caso não possuísse raio e que mediu-se algo um pouco superior a isso -- há, na verdade, umas correções que não vêm ao caso --; experimentos similares posteriores, do mesmo Dehmelt, indicaram que talvez o elétron pudesse ter subestrutura, tal como os prótons e nêutron, que são formados a partir de quarks.
O átomo em questão foi um íon de berílio, e passou uns bons meses visível; o mais interessante é que também podiam ser notados os "saltos quânticos", pois alterava de cor (incluso o infravermelho) dependendo de sua energia, e isso ocorria em graus discretos.
Quando cansou, isolaram uma anti-partícula, um pósitron, e ainda batizaram de Priscilla... hoje já isolaram até anti-próton... aí fica difícil pros céticos duvidarmos, por mais que batalhemos na compreensão dos sistemas ligados...
Das experiências mais finas e curiosas, estranho não seja muito conhecida. Por outro lado, não tenho de escutar por aí um Yo no crejo en los átomos, pero que los hay, hay.
Houve uma experiência que gostaria de poder ter realizado, pelo poder de persuasão, convencimento, que possui: isolar um átomo, tornando-o visível a olho nu.
Foi realizada* em meados da década de oitenta, pelo grupo de Hans Dehmelt, que ganhou o Nobel, até em razão do método criado ser útil, tendo permitido a medição do fator g-2 do elétron*.
(*) lê-se "gê menos dois"; em linhas gerais, digamos que o 2 seria o fator g (momento magnético) do elétron caso não possuísse raio e que mediu-se algo um pouco superior a isso -- há, na verdade, umas correções que não vêm ao caso --; experimentos similares posteriores, do mesmo Dehmelt, indicaram que talvez o elétron pudesse ter subestrutura, tal como os prótons e nêutron, que são formados a partir de quarks.
O átomo em questão foi um íon de berílio, e passou uns bons meses visível; o mais interessante é que também podiam ser notados os "saltos quânticos", pois alterava de cor (incluso o infravermelho) dependendo de sua energia, e isso ocorria em graus discretos.
Quando cansou, isolaram uma anti-partícula, um pósitron, e ainda batizaram de Priscilla... hoje já isolaram até anti-próton... aí fica difícil pros céticos duvidarmos, por mais que batalhemos na compreensão dos sistemas ligados...
Das experiências mais finas e curiosas, estranho não seja muito conhecida. Por outro lado, não tenho de escutar por aí um Yo no crejo en los átomos, pero que los hay, hay.
sábado, 11 de maio de 2002
A Ilha Paradisíaca
Era bela a ilha: um pequeno pedaço de terra cercado de coqueiros por todos os lados, decretando não apenas o isolamento de seus habitantes, mas também a impossibilidade da prática da pesca, de forma que a alimentação era restringida, basicamente, a coco e sua água.
Em virtude de tão desbalanceada dieta, a expectativa de vida era baixa, sendo a população quase toda composta por jovens - em sua maioria deficientes, com mãos, braços ou pernas deformados pelo parentesco.
E, graças à evidente deterioração cerebral, eram todos bastante felizes; mesmo a crosta de sujeira que já não mais descolava da pele não era ruim, pois a protegia de queimaduras - como fazia questão de repetir o chefe da ilha, o mais feliz e orgulhoso de todos, que fora o último vencedor do sazonal teste de força e velocidade, obtendo, destarte, a honra de ser guardião e manejador da pedra de abrir cocos.
Entretanto, de alguma forma, após fortes chuvas, curiosas plantas em forma de chapéu começaram a ornar o monte de fezes acumulado na ponta oeste da elíptica ilha. Passado o susto inicial, que obrigou os nativos a defecarem por quase uma semana na outra ponta da ilhota, e fez dois se atirarem do alto de um coqueiro, a curiosidade, aumentada pela necessidade de “enterrar” os suicidas, em avançado estado de decomposição, no monturo, forçou-os a tomar uma atitude.
O chefe, crendo-se autoridade suprema na ocorrência, resolveu comer um dos "chapéus". Nada sentindo a princípio, e sendo rara a oportunidade de saborear algo diferente, anunciou aos demais que comessem a enorme quantidade que se ali juntara.
Após muita alegria, vômitos por toda parte, além da morte de crianças menores e um bebê. E, como se não bastasse, em meio às alucinações, consentimento geral, o chefe arremessara a pedra do alto de um coqueiro para além-árvores.
Na manhã seguinte, veio a discussão, que, inflamada, rapidamente se tornou briga, e, numa divisão natural, os não-deformados, apesar de em menor número, conseguiram facilmente, fosse no corpo-a-corpo ou à distância - atirando metades vazias de cocos - subjugar os outros, que, por serem traidores, foram canibalizados. Com os ossos à mão, a surpresa: perceberam que alguns serviam bem à função de abrir cocos, o que restabeleceu a harmonia na ilha, e trouxe a confiança de que havia sido tomada a decisão correta.
A partir de então, os cogumelos passaram a ser consumidos com maior parcimônia, e, sempre que nascesse alguém deformado, era imediatamente morto e deglutido. E assim teria sido até o final dos tempos, não fosse a ainda maior redução de diversidade genética ter provocado, em não longo prazo, o fim do nascimento de bebês normais, o que só não tornou a ilha novamente deserta, porque Deus, em sua suprema sabedoria, apagou os vestígios e, de uma costela do último homem vivente, fez, novamente, uma perfeita mulher...
Em virtude de tão desbalanceada dieta, a expectativa de vida era baixa, sendo a população quase toda composta por jovens - em sua maioria deficientes, com mãos, braços ou pernas deformados pelo parentesco.
E, graças à evidente deterioração cerebral, eram todos bastante felizes; mesmo a crosta de sujeira que já não mais descolava da pele não era ruim, pois a protegia de queimaduras - como fazia questão de repetir o chefe da ilha, o mais feliz e orgulhoso de todos, que fora o último vencedor do sazonal teste de força e velocidade, obtendo, destarte, a honra de ser guardião e manejador da pedra de abrir cocos.
Entretanto, de alguma forma, após fortes chuvas, curiosas plantas em forma de chapéu começaram a ornar o monte de fezes acumulado na ponta oeste da elíptica ilha. Passado o susto inicial, que obrigou os nativos a defecarem por quase uma semana na outra ponta da ilhota, e fez dois se atirarem do alto de um coqueiro, a curiosidade, aumentada pela necessidade de “enterrar” os suicidas, em avançado estado de decomposição, no monturo, forçou-os a tomar uma atitude.
O chefe, crendo-se autoridade suprema na ocorrência, resolveu comer um dos "chapéus". Nada sentindo a princípio, e sendo rara a oportunidade de saborear algo diferente, anunciou aos demais que comessem a enorme quantidade que se ali juntara.
Após muita alegria, vômitos por toda parte, além da morte de crianças menores e um bebê. E, como se não bastasse, em meio às alucinações, consentimento geral, o chefe arremessara a pedra do alto de um coqueiro para além-árvores.
Na manhã seguinte, veio a discussão, que, inflamada, rapidamente se tornou briga, e, numa divisão natural, os não-deformados, apesar de em menor número, conseguiram facilmente, fosse no corpo-a-corpo ou à distância - atirando metades vazias de cocos - subjugar os outros, que, por serem traidores, foram canibalizados. Com os ossos à mão, a surpresa: perceberam que alguns serviam bem à função de abrir cocos, o que restabeleceu a harmonia na ilha, e trouxe a confiança de que havia sido tomada a decisão correta.
A partir de então, os cogumelos passaram a ser consumidos com maior parcimônia, e, sempre que nascesse alguém deformado, era imediatamente morto e deglutido. E assim teria sido até o final dos tempos, não fosse a ainda maior redução de diversidade genética ter provocado, em não longo prazo, o fim do nascimento de bebês normais, o que só não tornou a ilha novamente deserta, porque Deus, em sua suprema sabedoria, apagou os vestígios e, de uma costela do último homem vivente, fez, novamente, uma perfeita mulher...
quinta-feira, 9 de maio de 2002
Destino Manifesto
1) Eu redijo um blog e não quero nada, eu digo portanto certas coisas, e sou por princípio contra os blogs, como sou também contra os princípios...
2) Sabe-se pelos jornais que os negros Krou denominam a cauda de uma vaca santa: MOZART. O cubo é a mãe em certa região da Itália: MOZART. Um cavalo de madeira, a ama-de-leite, dupla afirmação em russo e em romeno: MOZART.
3) MOZART NÃO SIGNIFICA NADA
4) A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma, porque a beleza está morta.
5) Como querer ordenar o caos que constitui esta infinita informe variação: o homem? O princípio: "ama teu próximo" é uma hipocrisia. "Conhece-te" é uma utopia, porém mais aceitável porque contém a maldade. Nada de piedade. Após a carnificina, resta-nos a esperança de uma humanidade purificada.
6) ... nasceu Dies Irae de um desejo de independência, de desconfiança na comunidade. Aqueles que nos pertencem conservam sua liberdade. Nós não reconhecemos nenhuma teoria. E não reconheceremos processos; os fatos, pessoas e idéias doravante mencionados dizem respeito a universos paralelos.
2) Sabe-se pelos jornais que os negros Krou denominam a cauda de uma vaca santa: MOZART. O cubo é a mãe em certa região da Itália: MOZART. Um cavalo de madeira, a ama-de-leite, dupla afirmação em russo e em romeno: MOZART.
3) MOZART NÃO SIGNIFICA NADA
4) A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma, porque a beleza está morta.
5) Como querer ordenar o caos que constitui esta infinita informe variação: o homem? O princípio: "ama teu próximo" é uma hipocrisia. "Conhece-te" é uma utopia, porém mais aceitável porque contém a maldade. Nada de piedade. Após a carnificina, resta-nos a esperança de uma humanidade purificada.
6) ... nasceu Dies Irae de um desejo de independência, de desconfiança na comunidade. Aqueles que nos pertencem conservam sua liberdade. Nós não reconhecemos nenhuma teoria. E não reconheceremos processos; os fatos, pessoas e idéias doravante mencionados dizem respeito a universos paralelos.
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