sábado, 11 de maio de 2002

A Ilha Paradisíaca

Era bela a ilha: um pequeno pedaço de terra cercado de coqueiros por todos os lados, decretando não apenas o isolamento de seus habitantes, mas também a impossibilidade da prática da pesca, de forma que a alimentação era restringida, basicamente, a coco e sua água.

Em virtude de tão desbalanceada dieta, a expectativa de vida era baixa, sendo a população quase toda composta por jovens - em sua maioria deficientes, com mãos, braços ou pernas deformados pelo parentesco.

E, graças à evidente deterioração cerebral, eram todos bastante felizes; mesmo a crosta de sujeira que já não mais descolava da pele não era ruim, pois a protegia de queimaduras - como fazia questão de repetir o chefe da ilha, o mais feliz e orgulhoso de todos, que fora o último vencedor do sazonal teste de força e velocidade, obtendo, destarte, a honra de ser guardião e manejador da pedra de abrir cocos.

Entretanto, de alguma forma, após fortes chuvas, curiosas plantas em forma de chapéu começaram a ornar o monte de fezes acumulado na ponta oeste da elíptica ilha. Passado o susto inicial, que obrigou os nativos a defecarem por quase uma semana na outra ponta da ilhota, e fez dois se atirarem do alto de um coqueiro, a curiosidade, aumentada pela necessidade de “enterrar” os suicidas, em avançado estado de decomposição, no monturo, forçou-os a tomar uma atitude.

O chefe, crendo-se autoridade suprema na ocorrência, resolveu comer um dos "chapéus". Nada sentindo a princípio, e sendo rara a oportunidade de saborear algo diferente, anunciou aos demais que comessem a enorme quantidade que se ali juntara.

Após muita alegria, vômitos por toda parte, além da morte de crianças menores e um bebê. E, como se não bastasse, em meio às alucinações, consentimento geral, o chefe arremessara a pedra do alto de um coqueiro para além-árvores.

Na manhã seguinte, veio a discussão, que, inflamada, rapidamente se tornou briga, e, numa divisão natural, os não-deformados, apesar de em menor número, conseguiram facilmente, fosse no corpo-a-corpo ou à distância - atirando metades vazias de cocos - subjugar os outros, que, por serem traidores, foram canibalizados. Com os ossos à mão, a surpresa: perceberam que alguns serviam bem à função de abrir cocos, o que restabeleceu a harmonia na ilha, e trouxe a confiança de que havia sido tomada a decisão correta.

A partir de então, os cogumelos passaram a ser consumidos com maior parcimônia, e, sempre que nascesse alguém deformado, era imediatamente morto e deglutido. E assim teria sido até o final dos tempos, não fosse a ainda maior redução de diversidade genética ter provocado, em não longo prazo, o fim do nascimento de bebês normais, o que só não tornou a ilha novamente deserta, porque Deus, em sua suprema sabedoria, apagou os vestígios e, de uma costela do último homem vivente, fez, novamente, uma perfeita mulher...