domingo, 28 de setembro de 2003

Mozart do Natal Passado

Planeta, a Terra; Bairro, Santa Rosa; como todas as crianças terrenas, fui acometido naquele natal pelo maior inimigo da infância: um brinquedo para induzir-me a uma profissão. E, apesar dos esforços de todos os educadores de rádio, chegará o dia em que os pais, os avós e os tios serão letais para qualquer forma criativa de vida; quem poderá intervir?

Sobrevivi, todavia, ao episódio do kit médico playmobil, embora tenha gasto algum tempo na medicina... Um amigo passou com louvor: o pai, que trabalhava na indústria pesqueira, dera-lhe uma lancha do playmobil; dias depois, a lancha esborrachava-se após "transformada" num avião...

Na verdade, é bastante inútil tal tipo de intervenção no futuro de outrem; se desse certo, não haveria tanto advogado -- segundo um amigo, não existe jogo de advogado. E haveria muito mais cientistas, haja vista as vendas de Alquimia, Jovem Cientista, Lunetas etc.

De todos os jogos infantis, o que me dava mais desgosto era o Jogo da Vida. Como era chato, e que roleta patética. Era começar o jogo da vida, e eu ia para o meu canto curtir um saudável autismo.

Penso, hoje, em criar o jogo da morte. Ganha quem morrer por último, ou quem chegar ao final, que recebe uma injeção letal e morre de forma indolor. O jogador começaria com uns 500 pontos de sanidade, e lançaria dois d6 (o seis é uma caveirinha) por rodada; cada casa, uma desgraça.

"Parabéns, você teve siameses, eles morreram na separação e tua mulher no parto. Você passou uma semana escutando Dean Martin cantar That's Amoré: menos vinte pontos."
"A árvore que plantaram no dia em que você nasceu secou; jogue mais uma vez."
Não espero fama nem fortuna, mas gostaria de vender mais que o Lango-Lango e o Pula-Pirata.

terça-feira, 23 de setembro de 2003

Sigismund Schlomo Freud

Até eu criaria a psicanálise se tivesse um nome parecido com esse -- e sem dúvida usaria cocaína suficiente para matar um cavalo. Se Fraud não tivesse morrido, não completaria hoje, no dia do sorvete, 64 anos longe de nós, mas chega de falar do tarado da Morávia.

A sociedade quer o meu sangue novamente; doaria com o maior gosto, porém há um tempo mínimo. Não pensem que seja altruísmo; doaria porque meu sangue é podre, e há sempre uma possibilidade do teste falhar e uma parte de mim ter contribuído para a ruína de outrem. Imagine: seu sangue ajudar a matar certos políticos, ou o dublador do Ursinho Poof, ou um vizinho chato; é tentador.

Agora, uma confissão sórdida: só confio em enfermeiras gordas e de tez escura. Deve ser influência do cinema estadunidense, mas esta é a grande verdade, e tamanha é minha confiança em tal categoria, que Freud diria que elas substituem minha mãe quando estou no hospital, e aconselharia médicos e faxineiros a ficarem longe.

A melhor parte de doar sangue, porém, é a hora do lanche; não devido à gororoba-em-si, mas porque, após recebê-la, abaixo a cabeça, fecho os olhos, e fico escutando a reação das pessoas derredor.

"O senhor está bem?"

Aceno que sim. Dez segundos se passam.

"Você está se sentido bem?"

Aceno que sim. Vagarosamente.

Mais vinte segundos. Tensão na lanchonete.

"O senhor quer se deitar?"

Levanto a cabeça; segurando o riso:

"Não, obrigado, estava só orando."

Cai a cortina.

segunda-feira, 8 de setembro de 2003

A Imagem do Brasil no Exterior

Sempre que a imprensa divulga crimes degradantes, as gentes falam sobre a imagem do Brasil no exterior... Um obeso mórbido que não queira sair de casa porque só estão limpas as camisas com listras horizontais; não faz sentido. Haja paciência, escutar a mesma tralha toda semana.

Os cientistas deveriam parar de envenenar ratos e fazerem algo útil, como criar uma unidade física para o cansaço, uma forma segura de medi-lo. Receber atestado médico de cansaço para não ir ao trabalho, isso sim é que é futuro. Passeatas, os sindicatos exigindo uma diminuição na taxa de cansaço semanal, férias em que as pessoas não viajariam com as crianças para locais horríveis. Como é triste estar preso numa concha espaço-temporal tão medíocre quanto a nossa.

Vou-me embora para Tangamandápio. Lá é outra civilização.