Até eu criaria a psicanálise se tivesse um nome parecido com esse -- e sem dúvida usaria cocaína suficiente para matar um cavalo. Se Fraud não tivesse morrido, não completaria hoje, no dia do sorvete, 64 anos longe de nós, mas chega de falar do tarado da Morávia.
A sociedade quer o meu sangue novamente; doaria com o maior gosto, porém há um tempo mínimo. Não pensem que seja altruísmo; doaria porque meu sangue é podre, e há sempre uma possibilidade do teste falhar e uma parte de mim ter contribuído para a ruína de outrem. Imagine: seu sangue ajudar a matar certos políticos, ou o dublador do Ursinho Poof, ou um vizinho chato; é tentador.
Agora, uma confissão sórdida: só confio em enfermeiras gordas e de tez escura. Deve ser influência do cinema estadunidense, mas esta é a grande verdade, e tamanha é minha confiança em tal categoria, que Freud diria que elas substituem minha mãe quando estou no hospital, e aconselharia médicos e faxineiros a ficarem longe.
A melhor parte de doar sangue, porém, é a hora do lanche; não devido à gororoba-em-si, mas porque, após recebê-la, abaixo a cabeça, fecho os olhos, e fico escutando a reação das pessoas derredor.
"O senhor está bem?"
Aceno que sim. Dez segundos se passam.
"Você está se sentido bem?"
Aceno que sim. Vagarosamente.
Mais vinte segundos. Tensão na lanchonete.
"O senhor quer se deitar?"
Levanto a cabeça; segurando o riso:
"Não, obrigado, estava só orando."
Cai a cortina.