sábado, 24 de maio de 2003

Igreja Paradoxa de São Libelo

Existem inúmeros métodos não ortodoxos para verificar se um livro é ou não passível de compra -- sem o ler ou pedir a opinião alheia. Cada pessoa tem os seus, registro abaixo alguns dos meus:

(i) Odor. Se cheira bem, desconfie: é golpe. Se cheira muito mal, só vale a pena se for técnico. O livro deve feder levemente a mofo. Quem está acostumado a naftalina, poderá ignorar este conselho. Exceção: livros em voga serão rejeitados independente de cheiro ou sabor.

(ii) Capílulas. Livros com capítulos longos são ruins -- vide Saramago. Capítulos extensos, apenas em livros de ação, que podem ser corridos sem maiores preocupações.

(iii) O filme. Se o livro originou filme, veja antes o filme. Se for muito ruim, não compre o livro. Se for bom, fique feliz por não ter lido ainda, e imagine que o livro seja um pouco melhor.

(iv) Hardcover. A capa deve ser sóbria, tons frios; ela pode ser poética, porém não melosa. O filósofo de antolhos tentou refutar-me certa vez dizendo que "um mesmo livro pode ter muitas capas", ao que respondi: "vale a da primeira edição, ou uma com aquarelas do autor, trouxa."

(v) O nome do autor. O nome do autor é extremamente importante para saber se gostará de um livro; procure-o na capa ou lombada.

(vi) Orelhas e afins. Prefira livros sem nada escrito a respeito, abomine os que contenham frases atribuídas a jornais. Os livros com orelhas são melhores, pois marca-páginas costumam vir com frases bregas e propagandas inestéticas. E jamais se case com alguém que dobre a ponta da página para marcar onde está.

Paro por piedade. Digo apenas que a forma utilizada, a existência de figuras, a organização do frontispício, o primeiro parágrafo e o peso são muito importantes, bem como a densidade -- vale a pena mergulhar certos volumes num rio para ver qual afunda mais depressa. Aliás, é por isso mesmo que meu primeiro livro será totalmente de plástico, e passível de leitura na piscina ou banheira. Se for comprar de papel, prefira os de pH neutro ou levemente alcalino.

domingo, 18 de maio de 2003

O Mais Filosófico dos Grandes Prêmios

Muito bom ver o carro do alemão pegar fogo; melhor ainda, que nem fez menção de sair do cockpit; o sujeito é quase um soldado da velocidade. A lamentar, apenas, que nossa tecnologia não seja suficiente para registrar seus pensamentos.

Quem é adepto do livre-arbítrio, poderá exaltar a coragem do pentacampeão e dizer que tem alguns parafusos frouxos. Os behaviouristas, por sua vez, discursarão sobre condicionamento, reflexo, reforço, hipovitaminose e a falta que uma sineta faz.

Em minha humilde opinião, a questão do livre-arbítrio resume-se à capacidade de escolhermos o que nos seja pior. Se escolhemos o que parece melhor, estamos procedendo racionalmente, não há muito livre-arbítrio; se agimos por instinto, aí é que não há livre-arbítrio mesmo.

Definido dessa maneira um tanto quanto contestável, é possível até fazermos um testinho de internet para ver quanto livre-arbítrio temos -- mas isso fica a cargo do leitor, proponho somente a seguinte experiência:

Escreva uma lista das cinco piores coisas que jamais faria. Diga a si mesmo: eu tenho livre-arbítrio, eu conseguirei realizar ao menos uma. Após desistir, com uma desculpa qualquer, faça uma lista das dez piores; e então uma das vinte, das trinta, até resolver ignorar as listas e fazer algo simples, que normalmente não faria, porque considera ruim ou burro -- mas nada que vá te matar. e.g.: enfiar o polegar no nariz enquanto dá uma coletiva de imprensa, assistir a Xuxa e os Duendes etc.

Veja até onde consegue levar este tipo de atitude insana, e terá uma boa noção de quanto livre-arbítrio possui. Mas atenção: se cumprir os desafios da segunda ou terceira lista, não é nenhum virtuose do livre-arbítrio, e sim um masoquista, precisa de ajuda especializada.

E, se fizer algo da primeira lista, por favor, esqueça que um dia visitou meu blog, não quero ser responsabilizado por nada -- exceção: caso resolva doar todo seu patrimônio, por favor entre em contato através da caixa de comentários... nem ia publicar esta porcaria, mas, livre como um ábaco, fi-lo; agora é convosco.