quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

Ditadura Nunca

Aproveitemos o final de ano e findemos também com o mito da Ditadura, que jamais esteve presente em nossas plagas.

Que seja um mito é facilmente verificável pelos livros de história, que não conseguem sequer dizer em que dia exato a brincadeira começou.

O mesmo argumento prova a inexistência de Jesus e Beethoven.

O Mister não falou nem avisou, mas eu anotei

Estou fazendo uma simpatia para não encontrar pais-de-santo nem pretos-véios na praia. Espero que dê certo.

(i) doze caixas de fogos-de-artifício vagabundos;

(ii) flores para Iemanjá, a padroeira dos assassinos em série;

(iii) submetralhadora Thompson, caso o povo tenha um acesso de coragem, inspirado pelo novo ano ou pela cachaça, e revide.

Se tiveres um futuro, ou não gostares de sangue, aponta os fogos para o alto: a fumaça estragará o espetáculo da prefeitura, trazendo felicidade a teu coração.

quarta-feira, 5 de novembro de 2003

Reminiscências (ii)

Nunca vi a graça de transmutar chumbo em ouro; muito melhor o contrário: adentrar a residência de famílias nobres e empoladas, e reduzir sua riqueza a plúmbeo pó. Tal era meu prazer pela destruição, que fui alcunhado o pequeno Bakunin por meu tio Saulo após quebrar o sofá de meus avós e atear fogo ao colchão. Logo me tornei leninista, porém, um "revolucionário em termos".

Um episódio marcante de minha infância ocorreu durante um dos recreios ao início da primeira série. Começávamos a jogar bola no pátio de areia -- eu não muito, pois era o goleiro --, tranqüilamente, em uma das extremamente disputadas balizas, quando um ínfero (não em estatura todavia) apareceu em minha visão periférica, correndo desenfreadamente em nossa direção, uma bola debaixo do braço, nada na cabeça, e seus comparsas já surgindo ao horizonte.

Tentei ignorar aquilo e me concentrar na partida que iniciáramos, porém foi difícil, vez que o sujeito iniciou um estranho ritual: pegou sua bola e a fez colidir contra um dos postes três vezes; atingiu em seguida o travessão, e, finalmente, a trave antípoda.

Desnecessário dizer que o jogo já fora interrompido, diante daquela cena bizarra, e inútil, mas antes que pudéssemos perguntar que diabos era aquilo, o rapazinho estufou o peito e, sem que houvesse tirado água do joelho, disse na minha cara: "A baliza é nossa; eu batizei primeiro."

Ao que retruquei gesticulando: "Meus pais não me batizaram, eu não tenho que batizar isso."

Até hoje considero meu argumento bom, mas, como eram maiores, começou o empurra-empurra, apartado pelo inspetor, que redefiniu as convenções locais: "Quem chegou primeiro? Então é sua."

Rindo prosseguimos nossa partida; um de nós ainda fez uma careta muito zombeteira, cena que ficou marcada em nossas memórias. No ano seguinte, já éramos algozes.
posted by mozart at 07:01 AM

terça-feira, 21 de outubro de 2003

Stalin as a Father Figure

Sua primeira esposa faleceu rapidamente, a segunda suicidou-se. Até onde sei, um filho morreu alcoolizado, o outro se matou por merda, e a filha emigrou para deus sabe onde (Svetlana?) temendo ser assassinada ou pior. Com um pai assim, não foi à toa que o comunismo esteve bem longe de lograr êxito -- ou pelo menos é o que asseveram, consternados, inúmeros companheiros.

E Stalin nem se chamava Stalin, tinha um sobrenome ridículo qualquer. Num ataque de estrelismo, Josef decidiu que seria Stalin = aço, e quis interpretar o personagem até os últimos dias, ou foi por este tomado. Com licença, mas isso é mais patético que Lulinha paz e amor...

As pessoas criticavam Boris Canabrava Yeltsin, mas se Stalin fosse obrigado a cantar em público uma música escolhida pelos camaradas uma vez por ano, talvez a história fosse bem distinta. Você aceitaria ordens de alguém que cantara I am a Rock (I am an Island)* ao videokê num dezembro passado? Vamos falar sério... por isso não espezinho o efelentífimo quando faz as de bufão por aí.

(*) I've built walls / A fortress deep and mighty / That none may penetrate / I have no need of friendship / Friendship causes pain / It's laughter and it's loving I disdain...

segunda-feira, 20 de outubro de 2003

Onde Vai Parar a Tevê Brasileira?

Começou na sala, foi pro quarto dos pais, chegou ao dos filhos, e parecia que terminaria na cozinha, substituindo os radinhos AM das empregadas domésticas; Ana Maria Braga era o novo Sílvio, ou ao menos já influenciava mais que a Hebe. A sra. Louro José enfrentou problemas de saúde, todavia, e como o mundo não espera, nem avança, seguiu para trás, levando a tevê ao quartinho de empregada, por meio de sucessos como o Cidade Alerta, o Ratinho, ou o Liberace.

A pergunta, porém, era onde iria parar a tevê brasileira: não sei, mas imagino que daí só possa ir pro banheiro. A minha esperança é a de que não seja o banheiro de empregada... na Alemanha, país muito mais avançado, os irmãos Schumacher lideram um movimento para que a tevê vá para a varanda, junto com o frigobar, mas nem lá a coisa tem dado muito certo -- a copa, por exemplo, só foi transmitida pelas redes fechadas.

domingo, 28 de setembro de 2003

Mozart do Natal Passado

Planeta, a Terra; Bairro, Santa Rosa; como todas as crianças terrenas, fui acometido naquele natal pelo maior inimigo da infância: um brinquedo para induzir-me a uma profissão. E, apesar dos esforços de todos os educadores de rádio, chegará o dia em que os pais, os avós e os tios serão letais para qualquer forma criativa de vida; quem poderá intervir?

Sobrevivi, todavia, ao episódio do kit médico playmobil, embora tenha gasto algum tempo na medicina... Um amigo passou com louvor: o pai, que trabalhava na indústria pesqueira, dera-lhe uma lancha do playmobil; dias depois, a lancha esborrachava-se após "transformada" num avião...

Na verdade, é bastante inútil tal tipo de intervenção no futuro de outrem; se desse certo, não haveria tanto advogado -- segundo um amigo, não existe jogo de advogado. E haveria muito mais cientistas, haja vista as vendas de Alquimia, Jovem Cientista, Lunetas etc.

De todos os jogos infantis, o que me dava mais desgosto era o Jogo da Vida. Como era chato, e que roleta patética. Era começar o jogo da vida, e eu ia para o meu canto curtir um saudável autismo.

Penso, hoje, em criar o jogo da morte. Ganha quem morrer por último, ou quem chegar ao final, que recebe uma injeção letal e morre de forma indolor. O jogador começaria com uns 500 pontos de sanidade, e lançaria dois d6 (o seis é uma caveirinha) por rodada; cada casa, uma desgraça.

"Parabéns, você teve siameses, eles morreram na separação e tua mulher no parto. Você passou uma semana escutando Dean Martin cantar That's Amoré: menos vinte pontos."
"A árvore que plantaram no dia em que você nasceu secou; jogue mais uma vez."
Não espero fama nem fortuna, mas gostaria de vender mais que o Lango-Lango e o Pula-Pirata.

terça-feira, 23 de setembro de 2003

Sigismund Schlomo Freud

Até eu criaria a psicanálise se tivesse um nome parecido com esse -- e sem dúvida usaria cocaína suficiente para matar um cavalo. Se Fraud não tivesse morrido, não completaria hoje, no dia do sorvete, 64 anos longe de nós, mas chega de falar do tarado da Morávia.

A sociedade quer o meu sangue novamente; doaria com o maior gosto, porém há um tempo mínimo. Não pensem que seja altruísmo; doaria porque meu sangue é podre, e há sempre uma possibilidade do teste falhar e uma parte de mim ter contribuído para a ruína de outrem. Imagine: seu sangue ajudar a matar certos políticos, ou o dublador do Ursinho Poof, ou um vizinho chato; é tentador.

Agora, uma confissão sórdida: só confio em enfermeiras gordas e de tez escura. Deve ser influência do cinema estadunidense, mas esta é a grande verdade, e tamanha é minha confiança em tal categoria, que Freud diria que elas substituem minha mãe quando estou no hospital, e aconselharia médicos e faxineiros a ficarem longe.

A melhor parte de doar sangue, porém, é a hora do lanche; não devido à gororoba-em-si, mas porque, após recebê-la, abaixo a cabeça, fecho os olhos, e fico escutando a reação das pessoas derredor.

"O senhor está bem?"

Aceno que sim. Dez segundos se passam.

"Você está se sentido bem?"

Aceno que sim. Vagarosamente.

Mais vinte segundos. Tensão na lanchonete.

"O senhor quer se deitar?"

Levanto a cabeça; segurando o riso:

"Não, obrigado, estava só orando."

Cai a cortina.

segunda-feira, 8 de setembro de 2003

A Imagem do Brasil no Exterior

Sempre que a imprensa divulga crimes degradantes, as gentes falam sobre a imagem do Brasil no exterior... Um obeso mórbido que não queira sair de casa porque só estão limpas as camisas com listras horizontais; não faz sentido. Haja paciência, escutar a mesma tralha toda semana.

Os cientistas deveriam parar de envenenar ratos e fazerem algo útil, como criar uma unidade física para o cansaço, uma forma segura de medi-lo. Receber atestado médico de cansaço para não ir ao trabalho, isso sim é que é futuro. Passeatas, os sindicatos exigindo uma diminuição na taxa de cansaço semanal, férias em que as pessoas não viajariam com as crianças para locais horríveis. Como é triste estar preso numa concha espaço-temporal tão medíocre quanto a nossa.

Vou-me embora para Tangamandápio. Lá é outra civilização.

sexta-feira, 29 de agosto de 2003

Fotos são de Marte, Estátuas são de Vênus

Ou Fotografias são de Marte, Esculturas são de Vênus, jamais me decidirei; de qualquer modo, é muito chata a aproximação de Marte: astrólogos na tevê dizendo bobagem, e astrônomos contando as mesmas histórias de sempre*... até palestras de neurolingüistas ou filósofos picaretas seriam menos enfaronhas.

(*) e.g.: incerta sobre os sinais regulares que detectara em seu radiotelescópio serem ou não uma mensagem, uma astrônoma nomeou a fonte de LGM-1: Little Green Men. Pouco tempo depois, um astrofísico inventou os pulsares.

Aliás, Kant podia saber muito de metafísica, mas se alguém aparecesse com uma prova irrefutável de que sujava as calças, estaria tudo perdido. Os livros de "lógica" podem dizer o que bem entenderem, mas o ad hominem ainda é a melhor solução.

Até porque todo mundo tem seu calcanhar de Aquiles; eu, por exemplo, sou hidrômano. Nada a ver com banho, o caso é que há muitos piromaníacos por aí, e alguém tem de equilibrar a coisa. Se virem um sujeito saindo com um balde d'água de casa para molhar um local público, podem saber que sou eu.

Nem sempre fui tão malvado, a culpa é toda da tevê. Os desenhos animados politicamente corretos são muito ruins, jamais educaram alguém; o pouco que aprendemos foi por meio de personagens da laia do Pica-Pau. Com uma frase, "Vodu é pra jacu", o maligno personagem convenceu-me de aquela religião não prestar pra nada.
Também me ensinou que a formiguinha operária é mal-intencionada, e muitas outras coisas, como avisar à polícia caso algo de estranho ocorra na vizinhança, cantar o Fígaro, pôr sal na cauda de aves, não consertar o encanamento sozinho para economizar.

O Gato Félix só me incitou a odiar todos os valores que pregava. É provavelmente o pior desenho da história, e nem menciono a dublagem.

segunda-feira, 25 de agosto de 2003

Reminiscências

Possuía um cão em infância, cocker spaniel que atendia por Bach; não apenas bobo, como cheio de problemas. A família passava por dificuldades financeiras, de modo que chegou o inevitável dia em que papai me informou de que teríamos de nos livrar do infame animal.

Muito genial, meu pai não usou termos tais; em vez disso, falou-me que libertaríamos o cão; e, a despeito dos frágeis protestos infantis, lá fomos nós, na estropiada Belina vermelha, rumo à estrada, levando o cão a seu habitat natural.

Paramos no acostamento e deixamos o pobre animal numa pequena mata-clareira. Tiramos a coleira, e ele saltou um pouco para lá e cá, atrás de insetos; aparentemente feliz, como papai ressaltou.

Despedi-me do bicho, que se aproximara, e fomos para o carro, enquanto ele tornava a saltar. Quando ruidosamente ligamos o veículo, creio que meu cão não entendeu bem o que ocorreria a seguir, pois parou junto ao meio-fio e ficou nos observando partir, parado, com a língua pra fora. Ainda correu um pouco em nossa direção, antes que desaparecesse na curva.

sexta-feira, 8 de agosto de 2003

Apogeu e Decadência da Humanidade

Durante milênios, o ser humano floresceu como a mais perfeita das criaturas, tendo subjugado a natureza e as demais espécies.

Em algum momento, porém, houve a queda: o homem passou a matar seu semelhante, a destruir o meio em que vivia, a chamar o leitor de hipócrita, a cobrar taxas de importação devido a linhas imaginárias. O que o teria levado a isso?

Nada mais simples: a perda da nêmesis. O instante em que o homem de cromanhôm destruiu o neanderthal foi seu ápice e sua decadência. A partir daí, o homem começou a bater na mulher, os filhos não tinham mais necessidade de seguir regras, os de cor diferente foram escravizados...

Imaginem quão belo seria nosso mundo com os neanderthais: dominados, fariam todo tipo de serviço sujo, de graça, e teríamos em quem descontar a raiva ocasionalmente. Haveria uns eco-chatos, claro, mas isso já temos hoje, e sem que as baleias façam nada de útil -- vide Star Trek IV.

Bem, é só um pensamento... também iria dizer que ter arma em casa é coisa de caipira, mas preciso provar que a soma relativística de velocidades leva a um 0/0, e não c, sempre que o referencial estiver à velocidade da luz...

terça-feira, 5 de agosto de 2003

Mais Imposto (Saudades do Quinto)

Para os impostos, há duas justificativas vastamente empregadas:

(i) razões de Estado -- é imprescindível mais dinheiro, desculpe;

(ii) você, eleitor, fazemos isso para o seu bem.

Donde se conclui que todo imposto seja bom... "Ministro, vá tomar no cu".

quarta-feira, 30 de julho de 2003

Geografria

"Estou partindo para o México. Essas propostas da Europa são sempre irrecusáveis". (Valdson, ex-zagueiro do flamengo, a respeito de sua contratação pelo Queretaro)

Mas o rapaz não é caso isolado, pelo contrário: a história da Geografia nacional registra diversos episódios de incompetência ímpar, desde nossa formação:

(i) Pedro Álvares Cabral, tentando chegar às Índias, aporta ao sul da Bahia;

(ii) insatisfeito com sua proeza longitudinária, Cabral conclui que o Brasil é uma ilha; passam-se três anos até que alguém perceba o equívoco e altere o nome de Ilha para Terra de Vera Cruz;

(iii) pra ficar apenas num caso local, cito o Rio de Janeiro. Nossos ancestrais, geógrafos por natureza, observando as belas águas da baía de Guanabara, acharam que se tratava de um rio. Confundiram uma baía com um rio; daí o nome desta esbórnia -- além da história do menino rei...

Não foi à toa, portanto, que precisaram chamar o Papa a fim de demarcar as fronteiras -- depois ignoradas. Geography, thy name is (dentre outras mil, patriamada) Brazil.

segunda-feira, 28 de julho de 2003

Sosostris & Equitone

O mais divertido das listas de discussão na internet é o surgimento de um OT. O desta semana foi horóscopo, assunto que domino quase tão bem quanto o canto das jubartes.

Permaneci em meu córner, mas quando inquiriram meu signo, não hesitei: Bob Esponja Calça Quadrada, com ascendente em Dick Vigarista... Teria maior predisposição pra astrolatria se os signos fossem desenhos animados -- o horóscopo oriental seriam animes... do jeito que é, prefiro ler Jung ou o manual de Vampire.

De qualquer modo, perguntaram-me de novo; tive de retrucar que desconhecia. Consultei uma tabela, e a primeira dúvida que surgiu é se sou de Capricórnio ou de Câncer. A tabela diz que sou capricorniano, mas nasci no hemisfério sul; quem acha que o hemisfério não faz diferença tem parafuso frouxo... Não me venham dizer que não há relação com estação, que é das influências mais palpáveis que temos na relação sol-terra, desde a antiguidade... a simbologia de nascer no dia mais curto do ano, num bruta frio, é bem diferente da de nascer num calor valadarês, no mais extenso dos dias.

Desiludido, espero me formar em numerologia (desde que não dependa da base) até o fim deste, ou dedicar-me à ornitorrincomancia.

quarta-feira, 18 de junho de 2003

Musil e a Reforma Previdenciária

"Um professor universitário diria que serve apenas à verdade e ao progresso, e não sabe de nada mais; pois essa é a sua ideologia profissional. Mas todas as ideologias profissionais são nobres, e os caçadores, por exemplo, estão longe de se considerarem os carniceiros da floresta; muito antes, chamam-se legítimos amigos dos animais e da natureza, assim como os comerciantes cultivam o princípio do lucro honesto, e os ladrões afirmam que seu deus é o dos comerciantes, isto é, o nobre e internacional Mercúrio, que liga os povos. Portanto não se deve valorizar muito como interpretam sua atividade aqueles que a exercem."

sábado, 24 de maio de 2003

Igreja Paradoxa de São Libelo

Existem inúmeros métodos não ortodoxos para verificar se um livro é ou não passível de compra -- sem o ler ou pedir a opinião alheia. Cada pessoa tem os seus, registro abaixo alguns dos meus:

(i) Odor. Se cheira bem, desconfie: é golpe. Se cheira muito mal, só vale a pena se for técnico. O livro deve feder levemente a mofo. Quem está acostumado a naftalina, poderá ignorar este conselho. Exceção: livros em voga serão rejeitados independente de cheiro ou sabor.

(ii) Capílulas. Livros com capítulos longos são ruins -- vide Saramago. Capítulos extensos, apenas em livros de ação, que podem ser corridos sem maiores preocupações.

(iii) O filme. Se o livro originou filme, veja antes o filme. Se for muito ruim, não compre o livro. Se for bom, fique feliz por não ter lido ainda, e imagine que o livro seja um pouco melhor.

(iv) Hardcover. A capa deve ser sóbria, tons frios; ela pode ser poética, porém não melosa. O filósofo de antolhos tentou refutar-me certa vez dizendo que "um mesmo livro pode ter muitas capas", ao que respondi: "vale a da primeira edição, ou uma com aquarelas do autor, trouxa."

(v) O nome do autor. O nome do autor é extremamente importante para saber se gostará de um livro; procure-o na capa ou lombada.

(vi) Orelhas e afins. Prefira livros sem nada escrito a respeito, abomine os que contenham frases atribuídas a jornais. Os livros com orelhas são melhores, pois marca-páginas costumam vir com frases bregas e propagandas inestéticas. E jamais se case com alguém que dobre a ponta da página para marcar onde está.

Paro por piedade. Digo apenas que a forma utilizada, a existência de figuras, a organização do frontispício, o primeiro parágrafo e o peso são muito importantes, bem como a densidade -- vale a pena mergulhar certos volumes num rio para ver qual afunda mais depressa. Aliás, é por isso mesmo que meu primeiro livro será totalmente de plástico, e passível de leitura na piscina ou banheira. Se for comprar de papel, prefira os de pH neutro ou levemente alcalino.

domingo, 18 de maio de 2003

O Mais Filosófico dos Grandes Prêmios

Muito bom ver o carro do alemão pegar fogo; melhor ainda, que nem fez menção de sair do cockpit; o sujeito é quase um soldado da velocidade. A lamentar, apenas, que nossa tecnologia não seja suficiente para registrar seus pensamentos.

Quem é adepto do livre-arbítrio, poderá exaltar a coragem do pentacampeão e dizer que tem alguns parafusos frouxos. Os behaviouristas, por sua vez, discursarão sobre condicionamento, reflexo, reforço, hipovitaminose e a falta que uma sineta faz.

Em minha humilde opinião, a questão do livre-arbítrio resume-se à capacidade de escolhermos o que nos seja pior. Se escolhemos o que parece melhor, estamos procedendo racionalmente, não há muito livre-arbítrio; se agimos por instinto, aí é que não há livre-arbítrio mesmo.

Definido dessa maneira um tanto quanto contestável, é possível até fazermos um testinho de internet para ver quanto livre-arbítrio temos -- mas isso fica a cargo do leitor, proponho somente a seguinte experiência:

Escreva uma lista das cinco piores coisas que jamais faria. Diga a si mesmo: eu tenho livre-arbítrio, eu conseguirei realizar ao menos uma. Após desistir, com uma desculpa qualquer, faça uma lista das dez piores; e então uma das vinte, das trinta, até resolver ignorar as listas e fazer algo simples, que normalmente não faria, porque considera ruim ou burro -- mas nada que vá te matar. e.g.: enfiar o polegar no nariz enquanto dá uma coletiva de imprensa, assistir a Xuxa e os Duendes etc.

Veja até onde consegue levar este tipo de atitude insana, e terá uma boa noção de quanto livre-arbítrio possui. Mas atenção: se cumprir os desafios da segunda ou terceira lista, não é nenhum virtuose do livre-arbítrio, e sim um masoquista, precisa de ajuda especializada.

E, se fizer algo da primeira lista, por favor, esqueça que um dia visitou meu blog, não quero ser responsabilizado por nada -- exceção: caso resolva doar todo seu patrimônio, por favor entre em contato através da caixa de comentários... nem ia publicar esta porcaria, mas, livre como um ábaco, fi-lo; agora é convosco.

terça-feira, 15 de abril de 2003

Leonardo era de Vinci

Li certa vez no Guinness que só existiram dois gênios universais: Lejbniz e Leonardo da Vinci. Lejbniz, de fato, não era burro, mas quem leu os cadernos culinários de Leonardo não terá dúvidas em afirmar que este era muito superior ao primeiro, e com a vantagem de ainda ser um excepcional tocador de alaúde.

Sempre que falam de Leonardo da Vinci, mencionam sua versatilidade*, o que é justo, e inúmeras invenções importantes, do helicóptero ao pára-quedas, porém a mais útil de todas dificilmente aparece: o espeto giratório. Usando um precursor da turbina, com a fumaça e o ar quente da churrasqueira como fonte de energia, da Vinci, sem nenhum gasto energético adicional, construiu a primeira churrasqueira automática da história!

(*) tamanha que escrevia ao contrário...

quinta-feira, 3 de abril de 2003

Mais Danos Morais e Ofensas à Honra

Idéia interessante seria cobrar danos morais por ofensas a personagens ficcionais. Quem falasse mal de Capitu, a promíscua, por exemplo, teria problemas com os herdeiros do Machadão. Ninguém mais poderia ridicularizar Werther, chamar o Frodo de drag sairia caro, e, vivo fosse, até o grande Cervantes seria processado por sua editora -- alcunhar o bravo dom Quixote de cavaleiro da triste figura e ridicularizá-lo por páginas e mais páginas, que coisa feia...
Basta descobrir a brecha legal... duvido alcunhem Harry Potter satânico se ameaça de processo houver. Sessões de RPG serão acompanhadas por observadores imparciais das nações unidas... e deus vai chorar.

terça-feira, 18 de março de 2003

ACREDITA! OBEDECE! LUTA!

Slogans são interessantes. Há dois, nazi-fascistas, que sempre me pareceram meio contraditórios:

(i) Quem tem aço tem pão.

(ii) Menos manteiga, mais canhão.

Ora, para que pão se faltará manteiga? Não faz muito sentido. Talvez preferissem geléia ou mostarda, quem sabe? O melhor, porém, estava à entrada de certo campo de concentração:

ARBEIT MACHT FREI: O Trabalho Te Libertará.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2003

O Homem é o único animal que ruboriza -- ou precisa

Adoráveis tempos bélicos, em que discussões tão frutíferas surgem à mesa do bar. Ontem, meu jovem amigo RAM disse que a guerra era um evento natural e inevitável, que servia pra "limpar o sangue ruim" a cada dez ou vinte anos.

É claro que desconfio de qualquer afirmação mais universal por reflexo. Esta poderia ser refutada em seu total ou por partes, porém isso não me interessa, pois lembrei-me de uma afirmação mais curiosa: o homem é o único animal que mata o seu semelhante*. Vocês já devem ter ouvido isso**, e soa-me certamente refutável***, bastando pesquisar um pouco****.

(*) por razões que não sejam a própria sobrevivência;
(**) arianos consideravam negros ou judeus seus semelhantes?
(***) além de chauvinismo não reconhecer na própria espécie as raízes de seu infortúnio, ou em si.
(****) que os animais matam e mutilam por diversão, já verifiquei inúmeras vezes; eu mesmo puxei o rabo de um gato certa vez, para ver se era divertido.

Pois bem: além de munir-me de almanaques, utilizei o método Stanislavski, e assisti a Zoolander para trazer-lhes a SEGUINTE INFORMAÇÃO: se o macho alfa de uma alcatéia apenas bane o seu semelhante, por outro lado, o joão-de-barro mata a mulher e o amante quando descobre ser corno.

Sim, é uma lenda, mas estava com preguiça de pesquisar. Sei, entretanto, que a abelha rainha ordena às súditas que destruam o casulo das semelhantes quando nasce. Conquanto a maior parte dos animais não mate seu igual*, há inúmeras exceções por aí. Assim como a morte por diversão ou treino não justificam a caça à raposa -- da qual, aliás, sou praticante, muito embora, na falta, só cace gambás --, a informação de que matar o semelhante seja natural também não prova nada. A verminose é natural, e nem por isso eu vou comer com as mãos sujas e ficar barrigudinho... acredito que alberto caeiro e seus apóstolos tenham morrido assim.

(*) usei o exemplo do lobo apenas devido àquele ditado.

sábado, 1 de fevereiro de 2003

DIOGO CÃO AND THE TRAGEDY OF ARISTOTELES, KING OF GRÉCIA

Em À Mesa com Aristóteles, que trata das discussões deste com seus discípulos durante a sobremesa, o Estagirita relata a existência de quatro tipos de churrascos:

(i) os barbarismos; churrascos estrangeiros constituídos por carne moída ou salsicha;

(ii) o espeto corrido; que é barato e destina-se ao empanturramento e taxidermia em geral;

(iii) o churrasco entre amigos; de qualidade duvidosa, que serve como aperitivo e desculpa para beber cerveja, além de auxiliar a retenção de líquidos;

(iv) o rodízio em si; este deveria ser apreciado, bem pago, e comentado com os amigos ou nas altas esferas, o que fosse mais conveniente.

Diógenes del ocho, num acesso de fúria contra o cartesianismo aristotélico, inventou o churrasquinho grego, e assim nasceu aquela aberração que até hoje pode ser encontrada nas ruas mais movimentadas das grandes capitais (com um suco de brinde), e, por incrível que pareça, na Grécia.

Devido à humilhação pública de sua sabedoria, Aristóteles passou doze anos sem experimentar o churrasquinho grego -- que teria enriquecido Diógenes se este tivesse o cuidado de registrar uma patente, muito embora sua alcunha (cínico) pudesse atrapalhar --, dizendo aos próximos que se tratava de moda passageira, e de forma alguma rasuraria sua obra, porém teve de ser operado do apêndice, tamanha sua revolta interior.

O armistício só teve lugar quando Aristóteles, por razões até hoje incertas, começou a escrever a primeira parte de sua fabulosa "Literatura de Banheiro", em que consagrava Homero e afirmava que "a qualidade de um livro é inversamente proporcional a seu odor". Os dois fizeram as pazes, e, numa homenagem póstuma, na segunda edição de À Mesa com Ari constava o "churrasquinho grego propriamente dito", que sugeria servido isoladamente, qual uma ilha, ou o criador.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2003

Contra a Melhoria de Vida na Cidade Grande

Temos assistido, nos últimos anos, a uma série de medidas coercitivas que visam à melhoria da qualidade de vida nas grandes cidades. Ora, se melhorarem, conseguirão apenas atrair mais gente para a metrópole, agravando a situação, até que se torne insustentável. A cidade do México foi erigida sobre um pântano; deixassem como estava, muito de ruim teria sido evitado.