Adoráveis tempos bélicos, em que discussões tão frutíferas surgem à mesa do bar. Ontem, meu jovem amigo RAM disse que a guerra era um evento natural e inevitável, que servia pra "limpar o sangue ruim" a cada dez ou vinte anos.
É claro que desconfio de qualquer afirmação mais universal por reflexo. Esta poderia ser refutada em seu total ou por partes, porém isso não me interessa, pois lembrei-me de uma afirmação mais curiosa: o homem é o único animal que mata o seu semelhante*. Vocês já devem ter ouvido isso**, e soa-me certamente refutável***, bastando pesquisar um pouco****.
(*) por razões que não sejam a própria sobrevivência;
(**) arianos consideravam negros ou judeus seus semelhantes?
(***) além de chauvinismo não reconhecer na própria espécie as raízes de seu infortúnio, ou em si.
(****) que os animais matam e mutilam por diversão, já verifiquei inúmeras vezes; eu mesmo puxei o rabo de um gato certa vez, para ver se era divertido.
Pois bem: além de munir-me de almanaques, utilizei o método Stanislavski, e assisti a Zoolander para trazer-lhes a SEGUINTE INFORMAÇÃO: se o macho alfa de uma alcatéia apenas bane o seu semelhante, por outro lado, o joão-de-barro mata a mulher e o amante quando descobre ser corno.
Sim, é uma lenda, mas estava com preguiça de pesquisar. Sei, entretanto, que a abelha rainha ordena às súditas que destruam o casulo das semelhantes quando nasce. Conquanto a maior parte dos animais não mate seu igual*, há inúmeras exceções por aí. Assim como a morte por diversão ou treino não justificam a caça à raposa -- da qual, aliás, sou praticante, muito embora, na falta, só cace gambás --, a informação de que matar o semelhante seja natural também não prova nada. A verminose é natural, e nem por isso eu vou comer com as mãos sujas e ficar barrigudinho... acredito que alberto caeiro e seus apóstolos tenham morrido assim.
(*) usei o exemplo do lobo apenas devido àquele ditado.