Nunca vi a graça de transmutar chumbo em ouro; muito melhor o contrário: adentrar a residência de famílias nobres e empoladas, e reduzir sua riqueza a plúmbeo pó. Tal era meu prazer pela destruição, que fui alcunhado o pequeno Bakunin por meu tio Saulo após quebrar o sofá de meus avós e atear fogo ao colchão. Logo me tornei leninista, porém, um "revolucionário em termos".
Um episódio marcante de minha infância ocorreu durante um dos recreios ao início da primeira série. Começávamos a jogar bola no pátio de areia -- eu não muito, pois era o goleiro --, tranqüilamente, em uma das extremamente disputadas balizas, quando um ínfero (não em estatura todavia) apareceu em minha visão periférica, correndo desenfreadamente em nossa direção, uma bola debaixo do braço, nada na cabeça, e seus comparsas já surgindo ao horizonte.
Tentei ignorar aquilo e me concentrar na partida que iniciáramos, porém foi difícil, vez que o sujeito iniciou um estranho ritual: pegou sua bola e a fez colidir contra um dos postes três vezes; atingiu em seguida o travessão, e, finalmente, a trave antípoda.
Desnecessário dizer que o jogo já fora interrompido, diante daquela cena bizarra, e inútil, mas antes que pudéssemos perguntar que diabos era aquilo, o rapazinho estufou o peito e, sem que houvesse tirado água do joelho, disse na minha cara: "A baliza é nossa; eu batizei primeiro."
Ao que retruquei gesticulando: "Meus pais não me batizaram, eu não tenho que batizar isso."
Até hoje considero meu argumento bom, mas, como eram maiores, começou o empurra-empurra, apartado pelo inspetor, que redefiniu as convenções locais: "Quem chegou primeiro? Então é sua."
Rindo prosseguimos nossa partida; um de nós ainda fez uma careta muito zombeteira, cena que ficou marcada em nossas memórias. No ano seguinte, já éramos algozes.
posted by mozart at 07:01 AM