E porque era sexta, e nada melhor ou pior havia, pus minha velha camisa breves tempos (dois dias? dois meses?) em que pertencera à Medicina-USP -- camiseta bem medicina mesmo, daquelas com letras garrafais e em cores berrantes, extremamente chamativas, que os discípulos de Hipócrates, pedra fundamental do mercado de auto-ajuda, pensam que tirar nota boa numa prova primária é sinal de inteligência, e precisam ostentar --, e aceitei o convite de um amigo para ir à chopada da medicina da UFF.
Que comentar? Talvez fosse mais edificante e interessante ter ido a uma reunião de numismatas, gagos ou ventríloquos. Música horrível, até um jogral de papagaios seria mais suportável, ornejos por toda parte, pouca cerveja, homem demais, gente chata, “fútil, quotidiana, tributável” e metida a besta, com cara de que está se divertindo, enfim: uma porcaria completa sob toda aquela fumaça desprovida de graça ou sentido.
Antes das onze, a rebarba da cerveja estava quente, deixamos a massa pra trás e tocamos pro bar do Cerol que era mais negócio -- muito embora tenha precisado pagar o táxi, pois meu amigo só tinha vale-transporte. Fiquei com seus vales, fazer o quê?, mas tendo certeza da premeditação -- o sujeito não anda de ônibus... Lá chegando, a mesma coisa de sempre pelo menos, e meu dinheiro esvaindo-se liquidamente. Talvez por isso tenha decidido ir pra casa mais cedo -- "pra pegar o treino de Fórmula 1", então de madrugada.
Rumei para o ponto como quem marcha ao cadafalso, o fim da noite chegara, aquela merda, sem dinheiro, um bode... Felizmente, porém, o verdinho chegou rápido; fiz sinal, subi e nem precisei pular a catraca -- costume das horas tardas, quando nos unimos contra as grandes corporações e economizamos deixando um trocado pro frango ou café da dupla --, pois estava pleno dos malditos vales, a segunda moeda nacional.
Tive sorte, o último da noite, com alguma gente, mas ainda arrumei um lugar para sentar-me próximo ao motorista -- quando pequeno, minha mãe dizia pra eu ir perto do motorista; não consigo ir em outra parte do bólide sem me sentir em risco iminente.
O motorista ia conversando com o trocador aos berros, pois amortecimento não era um dos predicados do veículo, e já estávamos no Caio Martins -- sacro palco dos jogos do glorioso (atualmente, está sem energia por falta de pagamento) --, quando um sujeito na cadeirinha pra aleijados puxou a corda.
Parecia meio bêbado, a maneira estabanada como se levantou, saiu do ônibus às pressas. Mal saiu, aliás, o ônibus ia dando partida e o sujeito atravessou na frente.
Foi um milagre não o termos alvejado, escapou por centésimos, devido à brecada do motorista, e tudo pra ser atirado aos ares por um Gol velho, em alta velocidade, que a Mercedes tirara de seu campo áudio-visual (mas quem imaginaria que poderia estar passando um carro por trás do ônibus? Deus é realmente justo, e verdadeiro.)
A frenagem desesperada do automóvel, um barulho seco e o sujeito voando. Foi lindo -- na verdade, não foi nem um pouco bonito, mas foi a expressão que me veio --; vi-o de camarote, e agora o pessoal esticava o pescoço, alvoroçado, a fim de saber o que ocorrera. Burburinho; o motorista se virou pra gritar ao cobrador: ... mas não gritou. Olhou pra minha discreta camisa e soltou uma frase que jamais me esquecerei enquanto ainda restar um pingo de inteligência e remorso em meu espírito: "você faz medicina?". Foi horrível. E logo eu, que detesto perguntas diretas, nunca consigo respondê-las -- não que goste de mentir, é incontrolável, simplesmente detesto responder a perguntas secas, sou insubordinado por natureza --, e foi por isso que, num ato-reflexo, minha boca proferiu o infeliz "Posso dar uma olhada; mas eu só tenho treinamento básico".
Poderia dizer que demorou muito, e que minha vida passava pela minha mente ou olhos, mas, enquanto as pessoas derredor digitavam furiosamente seus celulares, em busca de bombeiros, hospitais ou o que fosse, só deu tempo de xingar-me algumas vezes por colocar-me, gratuitamente, em tal situação, culpar alguns amigos canalhas e torcer para que, oximoramente, o sujeito estivesse ou bem, ou bem morto.
A primeira coisa que vi, ou de que me recordo, foi o pescoço todo ensanguentado. 'Imbecil filho-de-puta miserável por que você está fazendo isso comigo?' Havia vida no corpo, posso afirmar. E por sorte havia muita. O sangue que vira se originara de um corte superficial (quero crer) na cabeça ("dura-máter", balbuciei em algo pouco maior que um sussurro, sem absolutamente nenhuma convicção, mas querendo infundir um mínimo de respeito, para não ser pego como mentiroso e irresponsável -- se é pra fazer a merda, façamo-la completa), o sujeito havia passado a mão ali e depois esfregara no pescoço.
Olhava-nos arregaladamente o acidentado, mas, ao contrário do motorista do Gol, com surpreendente calma -- talvez estivesse em estado de choque, algo que nunca compreendi muito bem. O fato é que lá estava eu, e, sem saber muito o que fazer, dispondo apenas do vasto conhecimento congênito que possuo, num gesto patético, ergui três dedos, para ver se ele os acompanhava, e perguntei quantos eram.
Acertou. Alívio. Minha pergunta seguinte foi por seu nome e onde morava; disse que estava indo para um endereço ali perto. A esta altura, é claro, todos já estavam em volta, e dois senhores dispuseram-se a ir até o local citado. Parecia que a coisa terminaria bem; disse para que ficasse como estava, deitado -- eu que não me responsabilizaria por uma tetraplegia; sou doido mas não sou burro, já me bastariam os anos por exercício ilegal da medicina, falsidade ideológica e aparentados --, o motorista do Gol já estava mais preocupado com estado do carro que com o coitado, quando uma voz feminina -- mas nada feminina; na verdade, velha, suja, pobre e morbidamente gorda -- irrompeu
ELE TÁ PERDENDO SANGUE. TÁ PERDENDO SANGUE. ELE VAI MOOORRERRR.
Puta-que-pariu, sussurrei, e numa tranqüilidade irritada e controlada, típica de quem está com medo, disse "Calma, minha senhora, nem toda nuvem tempestades engendra"
SE FOSSE MEU FILHO
Felizmente, um sujeito grande pôs a mulher em seu lugar, i.e.: no ônibus, dizendo para que não olhasse ou passaria mal, que o rapaz estava bem
ELE VAI MOOORRERRR.
Comecei a ficar mais nervoso e irrequieto; 'Por que os anjos do asfalto estão demorando?, há um hospital a menos de seis quadras daqui', e todos em volta sem saber o que fazer, olhando pro sujeito ali estirado, com um bafo de cana que só eu sei, e, de repente, salvo pela sereia mágica. Ao fundo a escutava, os paramédicos chegavam para me socorrer, fiquei extático contemplando aquela visão beatífica de uma ambulância. Respondi vagamente ao que me perguntavam, "concussão", "perdeu algum sangue", "sem muitas dores corporais", "não fiz nada, só..."
E, antes que me desse conta, já estava retornando ao ônibus, infinitamente grato por não ter sido levado para o hospital acompanhar meu paciente, ou, tampouco, para um inquérito. Seus conhecidos chegavam rapidamente, e com o retorno dos passageiros que haviam se deslocado, seguimos para nossos destinos, não tão confiantes na vida assim, mas buscando algo em que nos apoiarmos, como a estupidez e imprudência do culpado.
Apertei o botão sinalizando que chegara a meu ponto e desci triunfalmente, desejando uma boa noite ao motorista. Adentrei o prédio, o elevador esperava-me, 'Eu mereço', e com ébrias dificuldades abri a porta da cozinha, já pensando em que salgados fritar para sublimar a indefessável larica, quando minha irmã anunciou: "Acabou o treino; tá chovendo, Rubinho foi pole."
"Merda". Aquele dia, o azarado fora eu, mas não tinha do que reclamar; não tinha do que reclamar, até porque possuía em mim a certeza de que salvara uma vida, a minha, e que, no dia seguinte, o Schumi, como o Rubinho, não me faltariam, e foi o que aconteceu...