quinta-feira, 27 de outubro de 2005

Até que a morte te carregue

A idéia de que as pessoas se libertem dos sagrados laços do matrimônio após a morte sempre me indicou que o Céu seja uma grande suruba. E posso estar equivocado, mas ainda acho que as 72 virgens dos mulá-bombers sejam uma forma de punição.

Mas falemos do amor, pois isto aqui é um blog de família -- talvez criada por Tolstói, mas ainda assim uma família.

O amor é sem dúvida o sentimento mais alto do gênero humano, embora neste calor às vezes eu seja tentado a trocá-lo por uma casquinha de baunilha do McDonald's. Mas eliminemos a casquinha, o ar refrigerado, a coca-cola de latinha, e voltemos ao amor.

A meu ver, só há uma coisa mais vergonhosa do que sobreviver por anos e anos à terrível perda: não ter, em tal período, batalhado um novo matrimônio.

Porque, convenhamos, quem ama verdadeiramente não resiste à perda do seu amor. Todos conhecemos inúmeros casos de loucura e definhamento de viúvos e viúvas por aí. Se isso não ocorre, é porque muito antes do óbito, já falecera o amor.

E o respeito, mui nobre, à memória da falecida, ou falecido, não é senão um disfarce para o fato de que o amor não morrera previamente, mas jamais existira naquela relação. Que o cônjuge lhe era algo tão repelente, que sequer valha a pena tentar.

Se algum dia tivesse existido o amor, não seria assim. Ainda que pouco, ainda que temporário, teria deixado um vazio agora novamente pronto a se preencher. Mas tudo que restou foi rancor; o rancor e o riso de escárnio de um "já vai tarde".

Quando morrer, espero que minha esposa caia dura e fria a meu lado. Mas se isso não ocorrer, quero mais que ela vá é tomar no cu.